segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Desapreço



Marina Costa

Puxou nas costas o fecho e alisou o corpo, levantando os seios morenos por trás do vermelho profundo e infinito do vestido pouco. Do tornozelo às coxas as mãos subiram sentindo a textura sedosa da fina meia ressaltando com brilho o torneado das pernas longas. Os pequenos pés, escondidos no sapato fino, rápido se equilibraram sob a altura da ostentação. No rosto, pós e cores induzindo à sensualidade exagerada de uma idade fingida. Por fim, ao puxar o elástico, derramou sobre o colo a cascata de negros cabelos contrastando com a beleza esverdeada da safira, ainda que um pouco ofuscada entre curvas salientes.

Ao fechar a porta deixou no ar por longos minutos o perfume doce de baunilha fresca. Espalhado pelo sala e chegando lento até os pedaços rasgados de um papel, jogados pelo chão. Era a letra dele. Era a vida que deixou para trás junto com os cacos de um coração que resolveu colocar a venda.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Isósceles

Marina Costa


De rabo de olho a loira, atenta, observava os dois. Era um olho no peixe e outro no gato, como dizia vovó. Enquanto reparava o cabelo brilhante, a boca úmida, a voz meio rouca captava cada reação do seu namorado, o simpático e sorridente ruivo da esquerda. Não era nada burra. Sabia, que durante uma briga, enquanto estavam separados, aqueles dois tiveram um afair. Mais que isso nem quis ouvir. Soube apenas, por amigos em comum, que a tal morena caiu aos encantos do sorriso sedutor dele. Não era para menos. Um e noventa e cindo de puro charme e um caráter de dar inveja em muito monge budista. Maldita hora que ela pediu aquele tempo. Bendita quando ouviu que eles voltariam, porque ele descobriu que nunca poderia amar outra mulher na vida. Mas vai entender cabeça de homem, pensava ela... Era um rabo de saia e lá se vai o tal do amor para o beleléu...

Continuava prestando atenção. Discretamente, afinal não queria confusão. Dar justificativa para ele se irritar. Mas tomaria conta do que é seu, isso sim. Por fim, os dois se despediram. Com beijinhos inocentes no rosto. A morena se encaminhou para ela. Que jeito de andar! Abriu o sorriso feminino mais encantador que ela jamais conheceu! Era a pele morena mais bem cuidada que já tinha visto na vida. E todo o conjunto da obra só a deixava mais arrasada por saber que seu amor já passara por aqueles belos braços torneados. Se sentiu um pouco infeliz. Foi quando a outra, de repente, parou na sua frente. Deu na loira um abraço verdadeiro e apertado, sussurrou em seu ouvido um "bom te ver" que tinia admiração e completou a cena com uma piscadinha que disse tudo. Ela era vistosa, diria o vovô, e parava até carro de boi. Mas por obra do cupido, travesso e sabido como ele só, as duas sabiam muito bem que os belos olhos do homem que compartilharam só teria, pela vida inteira, uma única direção. E era para aquele rosto de querubim, loirinho e inseguro. Para a expressão que fascinava e iria prender por toda a vida o coração bom e ruivo daquele que poderia ter todas, mas preferiu ser, sempre e completamente, de uma apenas.


sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Imprimida



Marina Costa

Às vezes acontece da lágrima ficar querendo escorrer olho abaixo. Enquanto a mente não permite, não entende, ela rola de um canto a outro, esperando se entra ou sai. Até que dá para fazer um esforço e deixar ela cair mas daí, como não tem razão aparente, fica meio feio chorar sem motivo. Mas o aperto no coração existe. E a tristeza está espreitando. Tem dias que a gente fica perdido no próprio corpo, esquecido da própria vida. E se não balança a cabeça e presta atenção na tevê, acaba mesmo é chorando sem porquê.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Quentura


Marina Costa

Rodando o copo na mão, enquanto a torrente de palavras fluía em resposta aos argumentos dela, a cabeça dele voava longe. Os olhos descendo pelo decote do colo e voltando, surpresos, aos negros cílios paravam de repente na boca vermelha e pequena, que mexia sem cessar. Não que ela falasse demais. Só não conseguia prestar atenção no que dizia. Meio alto, meio tonto, meio em chamas. Ela nunca iria desconfiar. Ele precisava soprar. Pegou a mão dela, pequena também, e a levou para fora dali. Longe do barulho, longe das outras vozes, longe de copos cheios de nada e brindes sem qualquer motivo. Com os braços e lábios, mãos e susurros mostrou para onde iria todo aquele assunto. Na verdade, não passava de princípio. O meio era o agora, entre os corpos quentes ainda vestidos. E o fim, que estivesse bem longe, seria permeado de muitos e muitos momentos como aquele onde frases compridas terminavam em longos beijos.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Outro dia

Marina Costa

O sol saiu mais cedo naquele dia novo. Brilhou como nunca e prometeu como sempre tudo o que até então não tinha sido sequer pedido. E foi assim que conseguiu o sorriso dela. Levantou os braços para espreguiçar e sentiu a leve brisa fina. Fechou os olhos por instantes e desejou, em sussurros, toda a harmonia que houvesse para poder seguir depois da turbulência da noite que durou dias. Pela vida agora iria se erguer. Um raio brilhou em seu rosto. Era um outro dia. Era um novo dia. E tudo o que ela desejou, sem saber porque, teve certeza que encontraria.