segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Desapreço



Marina Costa

Puxou nas costas o fecho e alisou o corpo, levantando os seios morenos por trás do vermelho profundo e infinito do vestido pouco. Do tornozelo às coxas as mãos subiram sentindo a textura sedosa da fina meia ressaltando com brilho o torneado das pernas longas. Os pequenos pés, escondidos no sapato fino, rápido se equilibraram sob a altura da ostentação. No rosto, pós e cores induzindo à sensualidade exagerada de uma idade fingida. Por fim, ao puxar o elástico, derramou sobre o colo a cascata de negros cabelos contrastando com a beleza esverdeada da safira, ainda que um pouco ofuscada entre curvas salientes.

Ao fechar a porta deixou no ar por longos minutos o perfume doce de baunilha fresca. Espalhado pelo sala e chegando lento até os pedaços rasgados de um papel, jogados pelo chão. Era a letra dele. Era a vida que deixou para trás junto com os cacos de um coração que resolveu colocar a venda.

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