quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Isósceles

Marina Costa


De rabo de olho a loira, atenta, observava os dois. Era um olho no peixe e outro no gato, como dizia vovó. Enquanto reparava o cabelo brilhante, a boca úmida, a voz meio rouca captava cada reação do seu namorado, o simpático e sorridente ruivo da esquerda. Não era nada burra. Sabia, que durante uma briga, enquanto estavam separados, aqueles dois tiveram um afair. Mais que isso nem quis ouvir. Soube apenas, por amigos em comum, que a tal morena caiu aos encantos do sorriso sedutor dele. Não era para menos. Um e noventa e cindo de puro charme e um caráter de dar inveja em muito monge budista. Maldita hora que ela pediu aquele tempo. Bendita quando ouviu que eles voltariam, porque ele descobriu que nunca poderia amar outra mulher na vida. Mas vai entender cabeça de homem, pensava ela... Era um rabo de saia e lá se vai o tal do amor para o beleléu...

Continuava prestando atenção. Discretamente, afinal não queria confusão. Dar justificativa para ele se irritar. Mas tomaria conta do que é seu, isso sim. Por fim, os dois se despediram. Com beijinhos inocentes no rosto. A morena se encaminhou para ela. Que jeito de andar! Abriu o sorriso feminino mais encantador que ela jamais conheceu! Era a pele morena mais bem cuidada que já tinha visto na vida. E todo o conjunto da obra só a deixava mais arrasada por saber que seu amor já passara por aqueles belos braços torneados. Se sentiu um pouco infeliz. Foi quando a outra, de repente, parou na sua frente. Deu na loira um abraço verdadeiro e apertado, sussurrou em seu ouvido um "bom te ver" que tinia admiração e completou a cena com uma piscadinha que disse tudo. Ela era vistosa, diria o vovô, e parava até carro de boi. Mas por obra do cupido, travesso e sabido como ele só, as duas sabiam muito bem que os belos olhos do homem que compartilharam só teria, pela vida inteira, uma única direção. E era para aquele rosto de querubim, loirinho e inseguro. Para a expressão que fascinava e iria prender por toda a vida o coração bom e ruivo daquele que poderia ter todas, mas preferiu ser, sempre e completamente, de uma apenas.


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