sábado, 25 de fevereiro de 2012

Refluxo



Marina Costa

16:31. Suas pálpebras pareciam de chumbo. Tirou os óculos. Coçou com força os olhos, até sentir lacrimejarem. Repôs os óculos. Apoiou o queixo na mão, que apoiou na mesa, sob o cotovelo. Escorreu e quase bateu a testa na tela. Assustado, olhou para os lados. Ninguém fez sinal de chacota. Se recompôs. Abriu novo arquivo. Nem o sistema colaborava, tudo lento, lento, leeeeento... zzz... zzz... Acordou com o próprio ronco. Coração disparado, limpou a baba na manga da camisa. Não poderia ficar ali. Levantou. Tomou um gole de café frio. E mais um. 16:38. Segunda interminável. Olhou pela janela. Imaginou-se pulando. Deitado, olhos fechados, ressonando, que delícia! Quando viu, a xícara já tinha caído. Despistado, conferiu se alguém tinha sido acidentalmente acertado. Parece que estava livre dessa. Voltou. Sentou. 16:41. Não aguentou. Escondeu-se no almoxarifado. E lá ficou, entre pilhas de papel e cartuchos de tinta, até às 8 horas do outro dia. Nunca dormiu tão bem.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Velha Folia


Marina Costa

Confete, serpentina e como em todos os anos o velho corpete de tia Dina.Todo carnaval era a mesma coisa. O batom ficava mais vermelho, o olhar mais brilhante e na quarta de cinzas tudo morria, ela voltava para o quartinho, sem sorrisos, sem aviso. Era uma história de família. A justificativa para Tia Dina, a Louca, viver a cantar marchinhas. Uma desilusão. Um amor que nunca vingou, uma ideia mirabolante, um sonho sem final feliz. Curiosa, certo dia perguntei para ela como foram suas primaveras. E ela me contou, receosa e tímida, que certa noite de ano novo, foi pedida em matrimônio, assim, somente pelo olhar. A cerimônia, secreta, se daria na terça de carnaval sob as bençãos do frei, cúmplice e primo. Tudo acertado, transbordante de júbilo, deitou-se com seu amado, para selar o laço conjugal. Ele a deixou com um beijo na testa e uma promessa de retorno. E até hoje ela espera, pois sabe que ele é honrado e leal. As mulheres, minha menina, sentem tal caráter, disse-me ela. Ele virá buscar-me antes do próximo carnaval, para enfim vivermos a vida de fantasia sonhada desde a primeira vez que o vi… Eu fiz cara de descrente, de quem não dá a mínima para o embuste dos contos de fadas. E ela, pobre desacreditada, abaixou a cabeça chateada e começou a cantar enquanto olhava através da vidraça: “Não devemos nos separar, Não vá me deixar, Por favor, Que saudade, É cruel, Quando existe amor…”!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Torvelinha

Crédito da imagem: Escultura "Knee Hug" de Jo Jones - http://www.jojones.net/index.php

Marina Costa

No sopé da colina, abraçada aos joelhos, ela olhava o sol que descia. Pés descalços na grama, cabelo solto no rosto e ideias longe, seguindo por uma trilha que parecia sem fim. No fundo da mente, ouvia um eco que insistia em não morrer. Longe assim. Assim. Im. Junto uma imagem pausada, um sorriso endurecido, uma despedida fria e a certeza de que a falta de jeito mandou embora alguém que não deveria ter vindo. Sofria sorrindo pela conquista abandonada. No íntimo, tão junto de si, podia confessar que foi melhor. Sem amarras, andaria por onde quisesse a partir de então. Todos os fins de tarde seriam seus. Suas palavras jamais contestadas, suas mãos soltas para sentir o vento entre os dedos. Suspirava, sem saber ao certo se de alívio ou de apreensão. Pensando bem, e pensava, não tinha tanta certeza de querer para si o peso de toda a melancolia do pôr do sol. Todos os dias! E não conseguia traçar, assim tão facilmente, um caminho por onde pudesse andar completamente só. Haveria escuridão. Isso dava medo! Incerteza! Quem seria a mão para segurar no escuro? Um sorriso de incentivo, às vezes, até que tinha seu valor, reconhecia. Mas, vá lá; sacudindo a cabeça afastava o comodismo. Afinal com pedras e paus sempre poderia fazer seu próprio fogo. E nunca faltaria quem atirasse as tais pedras. Superar. Poderia tentar encontrar o gato da própria Alice. E rir com ele. Dormir sob estrelas, sem ouvir que poderia se resfriar. O país das maravilhas estava aberto. Era só tirar o passado da mente e abrir as asas para ganhar tal presente!

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Encarquilhado


Crédito da imagem: Conall McCaughey - http://www.flickr.com/people/16176711@N02/
Marina Costa
  
Abaixado e comprimido entre dois tocos secos de árvore, o velho senhor olhava o mundo ressentido. Dobrado como um galho murcho, esfarrapado como um pano de chão, em sua íris refletia o sol claro e aberto da manhã que ardia nova. Ele sempre desejou ser como o sol. Expandir mãos e braços, respirar a plenos pulmões, plantar na terra os dedos dos pés como se fossem raízes firmes. Mas seu sonho de expansão sempre foi tolhido pelas vozes que ouviu desde a infância dolorida. Monstro medonho. Criatura abominável. Terrível anormal. Acostumou-se a elas a ponto de não mais senti-las e poder olhar com indiferença a boca venenosa que as atirava. Conformou-se em crescer para o chão, ressentido e ressequido, como quis a vida. Encarquilhado, como ouviu um homem belo e imponente dizer entre risadas, durante certa exibição. Contudo, jamais deixaria de olhar o sol, desde que aquela boa mulher, a única entre muitas, lhe dissera ser para todos. As lágrimas que sempre escorriam ao nascer do dia, molhavam seus pés com a doçura de seu coração. Ao morrer, a semente que ficasse floresceria em algum futuro longíquo, em campos de beleza. Não beleza de pétalas ou reta envergadura de tronco. Beleza como a que cultivava dentro de si. De perdão e compaixão pelos que enxergam apenas o que os olhos procuram ver. 

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Estertor

 
Marina Costa

A vida dá voltas, uma hora, seja porque a gente ora mesmo quando ignora. Se um dia manda embora, no outro quase implora e prefere dos males o maior a ficar a deriva, sem leme e sem timão. Sorrisos falsifica e enterra em mentiras o pedaço de coração. Descrente, impaciente, ausente, clama por não ter mais um ídolo falso por quem chorar. Felicidade viscosa e asfixiante. Mas que acontece agora. Agora.