sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Encarquilhado


Crédito da imagem: Conall McCaughey - http://www.flickr.com/people/16176711@N02/
Marina Costa
  
Abaixado e comprimido entre dois tocos secos de árvore, o velho senhor olhava o mundo ressentido. Dobrado como um galho murcho, esfarrapado como um pano de chão, em sua íris refletia o sol claro e aberto da manhã que ardia nova. Ele sempre desejou ser como o sol. Expandir mãos e braços, respirar a plenos pulmões, plantar na terra os dedos dos pés como se fossem raízes firmes. Mas seu sonho de expansão sempre foi tolhido pelas vozes que ouviu desde a infância dolorida. Monstro medonho. Criatura abominável. Terrível anormal. Acostumou-se a elas a ponto de não mais senti-las e poder olhar com indiferença a boca venenosa que as atirava. Conformou-se em crescer para o chão, ressentido e ressequido, como quis a vida. Encarquilhado, como ouviu um homem belo e imponente dizer entre risadas, durante certa exibição. Contudo, jamais deixaria de olhar o sol, desde que aquela boa mulher, a única entre muitas, lhe dissera ser para todos. As lágrimas que sempre escorriam ao nascer do dia, molhavam seus pés com a doçura de seu coração. Ao morrer, a semente que ficasse floresceria em algum futuro longíquo, em campos de beleza. Não beleza de pétalas ou reta envergadura de tronco. Beleza como a que cultivava dentro de si. De perdão e compaixão pelos que enxergam apenas o que os olhos procuram ver. 

4 comentários:

  1. Gostei imenso do teu texto.
    Continua a escrever assim com essa descrição fantástica dos sentimentos que nos faz sentir verdadeiramente o texto.

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  2. Mariana, obrigada!!! Esse tipo de retorno é justamente o que me incentiva a escrever sobre sensações que penso ser de todos nós! Grande abraço!

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  3. Interessantes teus posts, escrevo para divulgar o : www.o-cercadinho.blogspot.com Caso queira acompanhar e dar umas risadas,
    será um prazer ter nos visitando lá. O que é o Cercadinho? Segue apresentação para te situares. Em cada relacionamento afetivo, os envolvidos ficam restritos a um espaço, O Cercadinho, onde acontecem as interações. Em algumas fases, está cheio de "queridas", mas em outros, quase vazio. O Cercadinho é o resultado das conquistas amorosas, onde cada um preenche à sua maneira e gosto. Pode ter o critério de cotas e uma de cada: loira, morena, mulata, ruiva e/ou japa. Com faixas etárias e tipos variados. Até monogâmico com apenas uma mulher selecionada. Somos dois homens escrevendo relatos e histórias, sem pretensão literária sobre O Cercadinho. Seco, objetivo e um pouco bagual com sentimentos, assim é Iberê. Apaixonante, cafajeste e trash total, esse o Marcão. Entre no nosso Cercadinho e boa leitura.
    Iberê

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