segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Velha Folia


Marina Costa

Confete, serpentina e como em todos os anos o velho corpete de tia Dina.Todo carnaval era a mesma coisa. O batom ficava mais vermelho, o olhar mais brilhante e na quarta de cinzas tudo morria, ela voltava para o quartinho, sem sorrisos, sem aviso. Era uma história de família. A justificativa para Tia Dina, a Louca, viver a cantar marchinhas. Uma desilusão. Um amor que nunca vingou, uma ideia mirabolante, um sonho sem final feliz. Curiosa, certo dia perguntei para ela como foram suas primaveras. E ela me contou, receosa e tímida, que certa noite de ano novo, foi pedida em matrimônio, assim, somente pelo olhar. A cerimônia, secreta, se daria na terça de carnaval sob as bençãos do frei, cúmplice e primo. Tudo acertado, transbordante de júbilo, deitou-se com seu amado, para selar o laço conjugal. Ele a deixou com um beijo na testa e uma promessa de retorno. E até hoje ela espera, pois sabe que ele é honrado e leal. As mulheres, minha menina, sentem tal caráter, disse-me ela. Ele virá buscar-me antes do próximo carnaval, para enfim vivermos a vida de fantasia sonhada desde a primeira vez que o vi… Eu fiz cara de descrente, de quem não dá a mínima para o embuste dos contos de fadas. E ela, pobre desacreditada, abaixou a cabeça chateada e começou a cantar enquanto olhava através da vidraça: “Não devemos nos separar, Não vá me deixar, Por favor, Que saudade, É cruel, Quando existe amor…”!

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