domingo, 25 de março de 2012

Aprisco


Ao se deitar ela ouviu o trovoar que anunciava uma assustadora tempestade. Era tamanho o barulho que parecia querer lavar o mundo ou quem sabe recriar o dilúvio. Batia na vidraça, provocando grandes gotas que escorriam densas. No aconchego da sua cama quente, no calor do seu corpo envolto em flanela nova, ela sorriu e fechou os olhos, ressonando. Rezou da forma que sabia. Grata pelo conforto de sua casa pequena, pelo amor de seu homem presente e pelo o ar que a vida lhe permitia respirar. Estranhamente teve a certeza de que era tudo. Quase adormecendo se viu na janela, sentada a olhar para a noite escura. Haviam estrelas. Olhando para fora, enxergou a si mesma mais uma vez, andando por um caminho gramado e enluarado. Usava branco. Mal tocava o chão. Parecia não existir. Éterica. Bela e infantil, harmoniosa como a brisa fresca. Era um sonho, percebeu. E olhando para trás, para si mesma na janela que via a si mesma no leito, abanou a mão em despedida. Nunca mais despertou. O choro correu, o corpo desceu ao escuro da cova recente e ali descansou. A alma se libertou e passou a vagar pelas pradarias dos sonhos dos outros. Porque, na verdade, ela estava de volta a seu lar. Corria pelos campos verdes sob o sol da tarde, enquanto sua Mãe, do céu, lhe sorria feliz. Era a filha que voltara.

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