sexta-feira, 9 de março de 2012

Inspiração


Marina Costa

     O autor suspirou. Espreguiçou-se. Estalou os dedos e colocou as mãos cruzadas atrás da nuca. Empurrou a cadeira de rodinhas e se recostou de forma que pudesse enxergar as formigas que andavam na borda da luminária de seu escritório. Cinco minutos se passaram. Dez e nada. Nem um pingo de inspiração. Sua mente estava tal qual a folha na sua frente, completamente em branco. Resignado, se levantou. Olhou desconsolado para o cesto, repleto de papéis embolados. Correu os olhos pelas estantes, repletas de primeiras edições - era ele um fanático pelas primeiras edições - e tentou tirar dali alguma idéia, alguma luz, um mísero lampejo de brilhantismo. Mas quem disse. Ficou foi irritado em pensar em como milhares de escritores podiam produzir vários best-sellers durante a vida e ele não conseguia nem mesmo fazer sua crônica semanal. Saiu da sala e bateu a porta.
     Na cozinha, procurou em vão um copo limpo. Na ânsia de achar o fio da meda se esqueceu da própria casa e agora tomava café nas tigelas de cereal. A última limpa se fora esta manhã e ele, desolado, pegou seu casaco e foi até a padaria da esquina.
     Lá fora fazia frio. Ele gostava desse tempo, quando o nariz e as orelhas ficavam gelados com o ventinho que bate no rosto. Aconchegou-se satisfeito no casaco pesado, lembrando de que normalmente produzia mais em dias nublados. Menos dessa vez... e não saber o porquê é que mais lhe tirava o sono.
     Sentou-se em sua mesa e esperou a atendente. Ela chegou como sempre, sorrindo. Perguntou se podia trazer o capuccino com chantilly. Ele arrefeceu. Enquanto ela se dirigia à cozinha ele olhou seu rebolado e pensou em escrever um conto pornográfico. Sentiu-se como um viciado que na falta de bebida é flagrado tomando álcool na bomba do posto de gasolina. Virou-se para olhar a rua, pelo vidro. Tudo andava como sempre. Muito trânsito, muita gente, caras irritadas, lojas abertas. Só sua criatividade não era a mesma. E isso era o pior de tudo. O mundo que se danasse, mas ele ficar sem ter o que escrever era, sim, uma catástrofe!
     A atendente trouxe a bebida e ele sorriu, ainda envergonhado de seu último pensamento. Agradeceu e tentou ler o jornal que estava na mesa. Notícias de hoje, com cara de ontem e informações de todos os dias: atentados, assassinatos, corrupção. Pensou em suas crônicas e viu que elas também estavam repletas de informações já exaustivamente exploradas. Decidiu que era hora de mudar. Falaria de nada e diria tudo. Divagaria com a caneta no papel e em meio aos seus devaneios as pessoas se achariam. Sorrindo diriam "ei, esse cara sabe do que preciso!".
     Iria se transformar, da noite para o dia, em uma espécie de guru literário. Nada de misticismo barato. Ele seria mais como um Saramago das montanhas mineiras, mostrando à esse povo que come quieto o real valor das coisas pequenas da vida. Logo após despontar para o sucesso, uma mulher, bonita, morena, de chapéu coco, viria até ele dizendo, trêmula, que o amava desde sua primeira linha, pois ele a entendia como nenhum outro homem jamais poderia. Emocionados, os dois cairiam aos beijos no sofá e no dia seguinte ele estaria confiante o suficiente para se tornar o escritor mais renomado da literatura brasileira...
     A atendente interrompeu seus devaneios perguntando se ele aceitava um croissant. Ele educadamente recusou, lamentando internamente o fato de ela ser loira. Pagou o cappuccino e saiu.
     Antes de voltar para casa viu algumas crianças gritando e correndo, na praça. Sentou-se para observá-las. Não se lembrou de seus tempos de infância e isso o entristeceu. Via, agora, que era a melhor época para se viver: sem preocupações, sem conhecimento da maldade, sem a pressão de ter uma crônica nova e completamente engajada a cada semana que pague seu aluguel de subúrbio. Suspirou pela décima vez naquela manhã. Porém, quando ia deixando o banco, foi atingido por uma bola, que depois de bater em seu ouvido esquerdo, caiu aos seus pés.
     Os garotos olharam em completo silêncio. Ele segurou o ouvido  com a mão e olhou para aqueles meninos. Foi um momento de reconhecimento tenso. Várias coisas se passaram na cabeça de ambos. Estariam os meninos com medo da reação de alguém que foi atingido por uma bola perdida? Será que ele ia xingar e furar o brinquedo com um canivete? Ou chamar o guarda para estragar-lhes a brincadeira?
     Mas quando ele sorriu e chutou a bola de volta, a gritaria facilmente recomeçou. Muitos "obrigado" e "valeu" foram ouvidos por ele. Sentiu-se feliz, pela primeira vez naquela manhã.
     Era isso. Sua próxima criação deveria deixar no leitor o gosto inocente da infância. A sensação boa e gratuita de que a vida é bela e nada mais do que isso. De que todos os dias deveriam ser encarados como uma brincadeira em um quintal ensolarado. A sensação de que uma bolada na cabeça pode ser recebida com um sorriso, para deixar a dor mais leve...
     Voltou para casa pensando em como realizar a sua tarefa. E concluiu que a primeira coisa a fazer ao chegar lá seria pegar certa caixa de lápis de cor, que há uns bons anos não saía do armário do porão.


5 comentários:

  1. Na verdade, já são 00:29... o blog não é muito certo das horas como não sou muito certa da necessidade delas...

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  2. Conversando com desconhecida minutos antes de ler este, Ela disse:

    "eu já gosto mais de fotografia
    gosto de resumir o excesso de poesia que me vem a mente nunca única imagem...
    acho incrivel a capacidade de falar que as imagens tem...
    haha"

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  3. Belíssimo! Me encontrei nas suas palavras... Obrigada pelo deleite que me provocou, querida. =)

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  4. Uma imagem realmente vale mais do que mil palavras... mas se você consegue colocar as palavras... aí o valor fica incáculavel! Obrigada, Anônimo! ;)

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