quinta-feira, 24 de maio de 2012

Peregrina


Perdida no meio do cruzamento ela carregava além do bloco de notas, um mapa surrado que lia de cabeça para baixo. Um transeunte riu. Ela, divertida, deu de ombros, abaixou os óculos de sol e seguiu para a esquerda fazendo da lata de lixo uma cesta de basquete, onde enterrou o mapa limitador. O sol ia alto, o ar estava fresco e a sola do sapato, apesar de gasta, agarrava-se firme àquele chão por desbravar. Metros depois de muita fachada imponente e nativos apressados ela sentou-se em uma praça, com um sorvete de morango nas mãos. Ali chamavam de outro nome. Mas o gosto era o mesmo, em qualquer lugar do mundo. Assim como o brilho da vida pulsante. Como a alegria das crianças no chafariz. Como a malandragem do moleque na esquina. O mundo, pensava sorrindo, é mesmo um lugar só. E lembrando de súbito que era um lugar grande demais, levantou-se de um salto do banco, acenou para um cachorro peludo e dirigiu-se ao desconhecido, único lugar onde se sentia em casa.

Marina Costa