sábado, 30 de junho de 2012

Mimo


Quando o sol se põe no peitoril da janela alta o sorriso clareia a face dela, que mal pode esperar para ver o último raio sumir no céu. Corre ao espelho e coloca no lugar a mecha que insiste em disfarçar o olhar brilhante. Passa nos lábios um brilho com cheiro de pêssego e deixa no armário o cachecol, herança da avó. Parte em busca de calor de gente, que já passa da hora de ter. Corre contra o tempo, contra os carros, contra a saudade que invade o peito durante cada hora do dia cheio. Chega ao prédio onde ele vive, escondido em seu canto colorido, tal qual mimo gracioso em prateleira de mágicos amores… Nas escadas, já sente as pernas bambas de alegria, o coração chacoalhando de ansiedade e a boca rindo meio besta de tanta satisfação. Toca a campainha e espera, em desespero feliz! Silêncio. Pisca e entorta um pouco a cabeça, na esperança de que o movimento anuncie sua presença ansiosa. Silêncio. Ao levar a mão trêmula para tentar mais uma vez, ouve o trinco rangir e vê pela fresta fina a silhueta que tanto anseia. Não há como descrever aqui o deleite sentido e encerra-se nesse ponto a descrição desse encontro diário. Mas posso ainda ressaltar que o abraço que partilham ali é sentido por muitos amantes e perdura por muitas vidas.

Marina Costa

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Entardecida


A luz laranja do entardecer entra sutil pela janela semi aberta da sala. Ilumina o livro melancólico esquecido sobre o aparador e lança raios dourados sobre uma cabeça baixa que, silenciosa, pensa sobre a morte. Sobre como o corpo outrora belo e jovem, fenece e como o sorriso claro de ontem, a gargalhada estridente sempre ouvida se anulam e se transformam em boca silenciosa e pálida, seiva ausente e seca. Sem encontrar justificativas ou mesmo razões divinas, cai em devaneios mais e mais negros, à medida que avança o dia. Extinguem-se as horas. Com pouco o sol finda e a brisa da noite iminente esfria os ombros magros e nus, cansados de tanta memória. Cai a lágrima que lamenta a perda. Desaba o pranto que tanto teme o fim.

Marina Costa

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Insosso

Marina Costa

O plim da máquina de escrever era ouvido a cada 5 minutos de batidas frenéticas nas teclas velhas. Ele se recusava a usar o computador. A modernidade que tudo acelera aumenta o ócio e o tempo onde se instala o tédio, dizia sério sob a haste grossa dos óculos. Os colegas riam dele. Entretanto era o único que não matava 2 horas de trabalho ao lado do cafezinho conversando balelas há muito já discutidas.

Era do tipo que ia do serviço para casa, da sala para o banheiro, do banheiro para a cozinha e da cozinha para o quarto que se resumia em uma cama de solteiro e escrivaninha. Sob a mesa, papel e caneta. Passava horas a descrever lugares onde nunca esteve. Provavelmente onde jamais iria. O salário mal cobria o aluguel e as despesas daquele casebre, imagine uma viagem para o estrangeiro. E sua força de vontade bastava apenas para as tarefas essencias de sobrevivência. Trabalhar, comer, manter-se alinhado e distribuir distraídos bons dias. Contudo tinha sua imaginação, o que entretia e não gerava despesa. Escrevia, relatava, criava diálogos em línguas desconhecidas, por vezes até desenhava estruturas arquitetônicas inimaginadas. E ao cansar dos olhos e dos dedos respingados de tinta, se arrastava até os velhos lençóis e dormia. Sem sonhos.

o despertador, certo como a luz do dia, o libertava da imobilidade cadavérica do sono. Do quarto para a cozinha, molhar o estômago com pão velho e café quente, pelo menos. Da cozinha para o banheiro, daí para a sala e por fim a rua pelo caminho bem conhecido. Outro dia como todos.

O plim da máquina de escrever foi ouvido ainda por anos a fio. Até que veio o maior dos grilhões disfarçado de alforria. Aposentadoria. Aposentou-se o senhor antiquado. Ninguém em seu lugar e o trabalho a aumentar foi o único motivo para, vez ou outra, citarem sua falta. A máquina que usava virou peça empoeirada de almoxarifado. O caminho diário agora não passava mais pela porta da rua. Da sala para a cozinha então para o banheiro daí para o quarto e de novo a sala. Um constante volitar de passos cegos. De histórias inverossíveis em lugares incertos. Era a pachorra de um homem que virava as costas à vida. Era a morte de um velho que, insosso, terminava seus dias.


sexta-feira, 15 de junho de 2012

Sereníssima



(Clara referência ao poeta da geração).


Marina Costa

Apegada a pouco ou quase nada. Somente ao material, praticamente. Ao que lê, ao que ouve, ao que bate asas coloridas. Ao vento que sopra nas pedras cantantes. E tudo cabe dentro da mala. Bem embalado, para não se partir. Afinal, existe o apego.

Calma como um vulcão adormecido. E não desejo para ninguém o jorro voraz do seu lamento. Branda frente a turbulência dos desejos alheios. Indiferente mostra a face que esconde pavor do anseio.

Andarilha do mundo, pisando em tortas ideias arremessadas pelos coerentes como entulho inútil. Sob elas se mantem em equilíbrio. Por amor a elas, se contradiz e se perde em paradoxos incompreensiveis do viver. Mas se hoje passa um, amanhã alguém poderá entender. Outro dia, quem sabe.

Sonha enquanto acorda, dorme enquanto sonha e no embalar do sono solto tenta entender o que tanto pedem, o que tanto julgam, o que tanto tudo. Olha alheia. E não entende porque ninguém quer ser, como ela, platéia. Só pensam nas estrelas. Longe e frias. Fica perto.

Não fala, não argumenta, não diz, não inventa, ao léu joga palavras, para quem quiser que intente. Não pode contar o que não sabe. Nem aumenta. Não responde a anelos cheios com realidades meias. Não as tem, ela. Não as tira, de súbito, do esgoto de uma ruela. E por isso (des)arma os punhos. Ouve, impassível. A cabeça meneia. Permanece, se querem. Apenas na presença que traduz-se, acredita.

Chega a noite, passa o dia, sob a lua que irradia, tira do sol o brilho para morrer no poente laranja. Quente e longíquo, como promessas. São só promessas. Mas, reconhece, belas. Serena o mundo, no colo escuro da madrugada que renova as ânsias cansadas e eternas do mundo que fica e fica para ficar sempre. É redemoinho, todas essas vontades juntas. É labirinto, tanto querer sem precisão. É choro, lágrima e sorriso num mesmo rosto ressequido esperando se não mais, um outro, diferente, para tentar decifrar o igual que ninguém sente. Ou sabe se sente. É calma em meio à certeza do turbilhão. É desilusão consentida e aceita, de bom grado. Serena.