quarta-feira, 20 de junho de 2012

Insosso

Marina Costa

O plim da máquina de escrever era ouvido a cada 5 minutos de batidas frenéticas nas teclas velhas. Ele se recusava a usar o computador. A modernidade que tudo acelera aumenta o ócio e o tempo onde se instala o tédio, dizia sério sob a haste grossa dos óculos. Os colegas riam dele. Entretanto era o único que não matava 2 horas de trabalho ao lado do cafezinho conversando balelas há muito já discutidas.

Era do tipo que ia do serviço para casa, da sala para o banheiro, do banheiro para a cozinha e da cozinha para o quarto que se resumia em uma cama de solteiro e escrivaninha. Sob a mesa, papel e caneta. Passava horas a descrever lugares onde nunca esteve. Provavelmente onde jamais iria. O salário mal cobria o aluguel e as despesas daquele casebre, imagine uma viagem para o estrangeiro. E sua força de vontade bastava apenas para as tarefas essencias de sobrevivência. Trabalhar, comer, manter-se alinhado e distribuir distraídos bons dias. Contudo tinha sua imaginação, o que entretia e não gerava despesa. Escrevia, relatava, criava diálogos em línguas desconhecidas, por vezes até desenhava estruturas arquitetônicas inimaginadas. E ao cansar dos olhos e dos dedos respingados de tinta, se arrastava até os velhos lençóis e dormia. Sem sonhos.

o despertador, certo como a luz do dia, o libertava da imobilidade cadavérica do sono. Do quarto para a cozinha, molhar o estômago com pão velho e café quente, pelo menos. Da cozinha para o banheiro, daí para a sala e por fim a rua pelo caminho bem conhecido. Outro dia como todos.

O plim da máquina de escrever foi ouvido ainda por anos a fio. Até que veio o maior dos grilhões disfarçado de alforria. Aposentadoria. Aposentou-se o senhor antiquado. Ninguém em seu lugar e o trabalho a aumentar foi o único motivo para, vez ou outra, citarem sua falta. A máquina que usava virou peça empoeirada de almoxarifado. O caminho diário agora não passava mais pela porta da rua. Da sala para a cozinha então para o banheiro daí para o quarto e de novo a sala. Um constante volitar de passos cegos. De histórias inverossíveis em lugares incertos. Era a pachorra de um homem que virava as costas à vida. Era a morte de um velho que, insosso, terminava seus dias.


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