sexta-feira, 15 de junho de 2012

Sereníssima



(Clara referência ao poeta da geração).


Marina Costa

Apegada a pouco ou quase nada. Somente ao material, praticamente. Ao que lê, ao que ouve, ao que bate asas coloridas. Ao vento que sopra nas pedras cantantes. E tudo cabe dentro da mala. Bem embalado, para não se partir. Afinal, existe o apego.

Calma como um vulcão adormecido. E não desejo para ninguém o jorro voraz do seu lamento. Branda frente a turbulência dos desejos alheios. Indiferente mostra a face que esconde pavor do anseio.

Andarilha do mundo, pisando em tortas ideias arremessadas pelos coerentes como entulho inútil. Sob elas se mantem em equilíbrio. Por amor a elas, se contradiz e se perde em paradoxos incompreensiveis do viver. Mas se hoje passa um, amanhã alguém poderá entender. Outro dia, quem sabe.

Sonha enquanto acorda, dorme enquanto sonha e no embalar do sono solto tenta entender o que tanto pedem, o que tanto julgam, o que tanto tudo. Olha alheia. E não entende porque ninguém quer ser, como ela, platéia. Só pensam nas estrelas. Longe e frias. Fica perto.

Não fala, não argumenta, não diz, não inventa, ao léu joga palavras, para quem quiser que intente. Não pode contar o que não sabe. Nem aumenta. Não responde a anelos cheios com realidades meias. Não as tem, ela. Não as tira, de súbito, do esgoto de uma ruela. E por isso (des)arma os punhos. Ouve, impassível. A cabeça meneia. Permanece, se querem. Apenas na presença que traduz-se, acredita.

Chega a noite, passa o dia, sob a lua que irradia, tira do sol o brilho para morrer no poente laranja. Quente e longíquo, como promessas. São só promessas. Mas, reconhece, belas. Serena o mundo, no colo escuro da madrugada que renova as ânsias cansadas e eternas do mundo que fica e fica para ficar sempre. É redemoinho, todas essas vontades juntas. É labirinto, tanto querer sem precisão. É choro, lágrima e sorriso num mesmo rosto ressequido esperando se não mais, um outro, diferente, para tentar decifrar o igual que ninguém sente. Ou sabe se sente. É calma em meio à certeza do turbilhão. É desilusão consentida e aceita, de bom grado. Serena.

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