terça-feira, 31 de julho de 2012

Sublimação


Só, no meio da rua deserta,  ela pingava da raiz do cabelo aos pés, típico pinto molhado da nossa imaginação chuvosa. A noite desceu fria, pintando de azul profundo o céu antes alaranjadamente ensolarado. Não haviam estrelas dessa vez. A lua também se retirou, entristecida. Era ela, os pingos, e o escuro que chegou. O vento não susurruva e o barulho único e denso era o plic plic no asfalto. Imóvel, durante as longas horas em que não pode falar, ela aguardou o outro dia, que sabia, sempre nascia. E nasceu. O sol levantou, abrasadoramente intolerante. Já se ergueu majestoso e brilhante, queimando pés e plantas que não dispunham do aconchego de uma sombra. E a pegou, ali no meio da rua deserta, bem prevenida. Ela sorriu. E em poucos minutos, não passava de uma leve fumacinha branca, que subia nuvens acima. Diluída em seu novo estado, pensava em onde iria se condensar dessa vez. Ou se pararia de chover no molhado. Talvez seja uma boa vida, essa de voar com leveza sem se aprisionar em formas pobremente definidas.

Marina Costa

domingo, 15 de julho de 2012

Noturno Urgir


A campanhia soa sem parar casa a dentro. É um fluxo ininterrupto de aflição. No sexto toque da quarta ligação a esperança de ouvir um alô já há muito se esvaiu... Mas algo ainda mais obstinado retem o fone junto a orelha. Pode ser fé. Talvez teimosia. E antes que a voz metálica lance outra vez a maldição da caixa postal, uma voz longe, sonolenta e meio rouca atende. Oi amor - alívio. Oi - comoção. Que foi, me ligando essa hora? - apreensivo. Eu só precisava ouvir você - emoção.

Marina Costa

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Ana Gógica



Escorre, morna e ácida, pelo rosto de porcelana. Ela não vive, mas chora. Não ouve, mas se apavora com os gritos dos que tudo pedem sem doar. Não pode ver a miséria com seus olhos de vidro, mas sente a dor dos outros em seu coração de pano. Ela é uma boneca e tem seu destino atrelado a beleza que nunca vai morrer nem secar. Aos elogios que nunca vão mudar e ao tempo que não passando, vai se transformar na mesma rotina infinita e perturbadora. Insana. A vida sem morte não passa de quadro, ironicamente, paisagem morta. Se não há quem vai, não tem quem chega e o dia é sempre o mesmo, depois do outro e sem amanhã. Ela é uma boneca, de boca pintada e cílios salientes. Ela só deseja cair da prateleira e se quebrar em mil caquinhos. Quem sabe, uma mão honesta vai lhe colar os pedaços. E uma fada azul vai brandir sobre ela a varinha, deixando que as horas passem, as rugas apareçam e com elas o amor que lapida com dor mas edifica com sabedoria, como só ele sabe fazer.

Marina Costa