quinta-feira, 5 de julho de 2012

Ana Gógica



Escorre, morna e ácida, pelo rosto de porcelana. Ela não vive, mas chora. Não ouve, mas se apavora com os gritos dos que tudo pedem sem doar. Não pode ver a miséria com seus olhos de vidro, mas sente a dor dos outros em seu coração de pano. Ela é uma boneca e tem seu destino atrelado a beleza que nunca vai morrer nem secar. Aos elogios que nunca vão mudar e ao tempo que não passando, vai se transformar na mesma rotina infinita e perturbadora. Insana. A vida sem morte não passa de quadro, ironicamente, paisagem morta. Se não há quem vai, não tem quem chega e o dia é sempre o mesmo, depois do outro e sem amanhã. Ela é uma boneca, de boca pintada e cílios salientes. Ela só deseja cair da prateleira e se quebrar em mil caquinhos. Quem sabe, uma mão honesta vai lhe colar os pedaços. E uma fada azul vai brandir sobre ela a varinha, deixando que as horas passem, as rugas apareçam e com elas o amor que lapida com dor mas edifica com sabedoria, como só ele sabe fazer.

Marina Costa

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