sábado, 18 de agosto de 2012

Conscientia Sceleris


Todo o júri olhava, atordoado, a figura frágil monstruosamente transformada pelo promotor. O juiz, com a mão sobre os olhos, sacudia a cabeça ante o tamanho da acusação. A platéia, atônita como toda boa platéia, aguardava com água na boca o pronunciamento daquela que os jornais passaram a chamar de "viuvíbora". Sentença máxima, gritavam todos os olhos, sedentos de circo. E ela, a ré, ainda menor do que parecia ante a ostentação daquele tribunal, fixava firmemente o sol pela janela, que nesse momento se punha, banhando de laranja toda a sala de julgamento. Quando finalmente, após um longo gole d'água o nervoso meritíssimo permitiu que ela desse seu depoimento, a ré levantou-se, alisou a saia cinza, ajeitou os óculos sobre o nariz e esboçou um sorriso, doce como a brisa que adentrou ao recinto. Confesso que amei. Foi tudo o que se ouviu de seus lábios ternamente rosados. Então ela caiu.

Marina Costa

2 comentários:

  1. Não tem teatro mais elaborado do que esse, Marina. E ah, você amou, eu entendo, mas é esse o perigo, e por isso eu odeio: um espetáculo onde se pode conquistar o publicão fazendo firula, enquanto ajeita o monte de sujeira embaixo do tapete e puf, sumiu, inocente, banal. Ah, odeio!

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  2. Um... uma forma de ver a questão... acho que sim, o amor anda desacreditado. Foram tantos jogos e trapaças usando ele como desculpa, que entendo. Mas acredito ainda que há aqueles que são honestos no que vivem. Acho que acredito.

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