domingo, 30 de setembro de 2012

Dialogismo


Os diálogos circundam a luz ofuscante do néon, se misturam à fumaça de tabaco, aos hálitos refrescados pelo álcool e saem embriagados pela janela. Na rua, rodeiam outras conversas, vindas de leito raivoso que sofreu o embuste da falsa adoração. Andando juntos e se encarando, encontram pela noite os gritos alegres da mendicância do submundo, feliz com um simples prato de comida. E olhando de canto de olho, percebem as lamúrias das mulheres descontentes sem motivo, as perguntas das crianças incompreendidas sem idade e os lamentos de todos nós, perdidos em nossa incapacidade de comunicação. Acima de todas essas falas, mal ou bem ditas, lutando contra toda essa memória escorrida vem os sorrisos silenciosos de aceitação. Opinião é veste ajustável a cada corpo, seja magro ou gordo. Ideia é guarda chuva que cobre deixando respingar. Argumento é botina cansada que por vezes se rasga machucando o dedão. O que não pode é fechar a boca e deixar apertar o coração. Porque o dizer deve ser dito, o sentimento exprimido e o homem humano deve estender a mão para construir, com muito entendimento desentendido, um mundo claro e raso de compreensão.

Marina Costa

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Duas pombas tem ideias


A juventude transviada, a promessa de uma liberdade libertina são formas quase extintas de viver a vida. O "se dar bem na vida" carrega uma maldição de responsabilidades inevitáveis para que a trindade adorada estudo-trabalho-relacionamento seja assim na prática tão maravilhosa como proclama a teoria. Considero uma utopia, discorde. Cedo, e hoje mais do que nunca, é colégio integral, escola de inglês, natação e tênis. Férias, cursinho de línguas, para aperfeiçoar. Intercâmbio, para divertir é que não dá. Há tanto museu e cultura para agregar. Faculdade, vestibular, agora começa a diversão prometida. Mas são listas e listas de exercícios para treinar nossa vã filosofia. Semana de provas, trabalho final, e os finais de semana floridos ficam protegidos pelo vidro da janela. Aqui dentro, estudo e silêncio. Nem moscas voam. Até elas se aborrecem com tanto teorema. Formatura, uma noite de diversão com os amigos em um baile de gala para comemorar quatro anos de privação. Em prol do conhecimento. E de um contra cheque gordo. Com ele, é possível fazer o tão sonhado casamento. Comprar o sítio de final de semana. Acumular garrafas de bebidas importadas, no bar que os amigos poucos visitam para fazer um happy hour entre uma semana e outra de mesmice. Agora sim, estabilidade para curtir a vida. Na hora em que o choro do filho parar de correr. Ou que o cachorro desistir de comer os sapatos e tentar te enlouquecer. Ou quando a preocupação com tantos gastos descer pelo ralo. E antes que se perceba, veio a aposentadoria. Como uma mulher sedutora, que abana um lenço branco, promessa de calmaria. E quando se está para tocar nessa pedra filosofal eis que toca a campainha, descem do carro os netos infantes e começa a barulheira, a trabalheira, as férias em família. A correria se dá casa a dentro e nos olhos dela há um reflexo melancólico de lembranças empoeiradas. Parece que pela sua cabeça passam alguns momentos que não foram vividos. Tenho quase certeza que ela se pergunta e se responde, num suspiro, que no final das contas, é a vida. Ficou tarde demais para ser irresponsável novamente. É melhor por o bolo para assar.

Marina Costa

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Repasto



Acordando de manhã, um pouco sonolenta, em mangas de camisa e descalços pés pequenos, ela entreviu, deliciada, aquela fumacinha faceira que saía da cozinha... Já sentia de antemão uma quentura gostosa se espalhando pelo corpo, dessas que só quitute de vovó na infância era capaz de provocar!  Lembrando da noite anterior a boca enchia de água, só de pensar! Fechando os olhos ela experimentava outra vez a textura, o sabor, o enebriante perfume apetitoso... Era alguma coisa entre baunilha com creme, salpicado de canela e cereja fresca com queijo brie derretido. Podia ainda parecer com castanhas em chocolate cremoso, cobrindo abundante um bolo de coco! Uma explosão de sensações, era isso o que ele era. Naquele avental então, sorrindo com a xícara fumegante na mão, era um deleite sem fim, banquete farto para os olhos famintos dela! Bom dia meu amor! Volta e vem deitar aqui comigo mais um pouquinho, que minha fome ainda não passou...

sábado, 1 de setembro de 2012

Havia entre todos um Etos luxurioso



- Mulher infame, é isso que ela é! Meu amigo nem bem desceu à cova e lá está ela, a balouçar sua falsa cabeleira dourada em antros como aquele…

- Bom, sabe-se desde da suntuosa cerimônia unindo a ambos, que eles representavam. Ele pouco homem e ela pouco nobre. Não sei como defende com tanto vigor seu amigo, que em vida tão pouca moral tinha. Escolheu com quem se casou, de qualquer forma. Uma mulher sem berço, que cheirava a golpe do baú e perfume nacional…

-Cale-se você também! Ele foi pressionado, sabe bem disso. Lhe contei toda a história, considerando a cumplicidade da partilha do meu leito e de tratar-se ele de meu amigo de infância.

- Querido, convenhamos, e ao partilhar seu leito, creio ter a liberdade de poder tolher sua saudosa e inventiva memória: você o detestava e o chamava de ouriço afeminado até que ele o convidou para sócio num empreendimento megalomaníaco absurdo como ambos, que resultou nesta sólida e milionária amizade feliz.

- Você é uma mulher asquerosa, sabia? Vira-se contra mim para defender a honra de uma meretriz desprovida de nascimento. O que deseja de mim? Posses e enterro, como ela, para andarem juntas a esbanjar o que o trabalho não lhes deu?

- Não, meu caro. Isso tudo faço com você bem vivo e certa de que de onde eu tiro você colocará mais. Na qualidade de sua companheira, apenas faço abrir-lhe os ouvidos às suas próprias asneiras, tentando lhe mostrar que é feito do mesmo barro podre que os sem escrúpulos ou falsa moral. Vá por mim, que nessa arte sou mestre: saiba quem você é para poder representar quando o mundo descobrir.

Ele, estarrecido, cuspiu o charuto na tapeçaria e saiu bufando e pisando duro pelo chão de mármore branco.

Ela, satisfeita, lançou sobre o pescoço a seda que caia ao colo e sorriu para o pequeno chiuaua no sofá carmim.

- Humanos, meu pequeno – ensinava outra moral ao cão – quanto mais vastos em seus devaneios gloriosos, mais devorados pelos vermes da luxúria em suas almas vendidas. Lembre-se bem disso.

Ele latiu, como se anuisse. Sairam para a cozinha, a buscar cupcakes.

Marina Costa