sábado, 1 de setembro de 2012

Havia entre todos um Etos luxurioso



- Mulher infame, é isso que ela é! Meu amigo nem bem desceu à cova e lá está ela, a balouçar sua falsa cabeleira dourada em antros como aquele…

- Bom, sabe-se desde da suntuosa cerimônia unindo a ambos, que eles representavam. Ele pouco homem e ela pouco nobre. Não sei como defende com tanto vigor seu amigo, que em vida tão pouca moral tinha. Escolheu com quem se casou, de qualquer forma. Uma mulher sem berço, que cheirava a golpe do baú e perfume nacional…

-Cale-se você também! Ele foi pressionado, sabe bem disso. Lhe contei toda a história, considerando a cumplicidade da partilha do meu leito e de tratar-se ele de meu amigo de infância.

- Querido, convenhamos, e ao partilhar seu leito, creio ter a liberdade de poder tolher sua saudosa e inventiva memória: você o detestava e o chamava de ouriço afeminado até que ele o convidou para sócio num empreendimento megalomaníaco absurdo como ambos, que resultou nesta sólida e milionária amizade feliz.

- Você é uma mulher asquerosa, sabia? Vira-se contra mim para defender a honra de uma meretriz desprovida de nascimento. O que deseja de mim? Posses e enterro, como ela, para andarem juntas a esbanjar o que o trabalho não lhes deu?

- Não, meu caro. Isso tudo faço com você bem vivo e certa de que de onde eu tiro você colocará mais. Na qualidade de sua companheira, apenas faço abrir-lhe os ouvidos às suas próprias asneiras, tentando lhe mostrar que é feito do mesmo barro podre que os sem escrúpulos ou falsa moral. Vá por mim, que nessa arte sou mestre: saiba quem você é para poder representar quando o mundo descobrir.

Ele, estarrecido, cuspiu o charuto na tapeçaria e saiu bufando e pisando duro pelo chão de mármore branco.

Ela, satisfeita, lançou sobre o pescoço a seda que caia ao colo e sorriu para o pequeno chiuaua no sofá carmim.

- Humanos, meu pequeno – ensinava outra moral ao cão – quanto mais vastos em seus devaneios gloriosos, mais devorados pelos vermes da luxúria em suas almas vendidas. Lembre-se bem disso.

Ele latiu, como se anuisse. Sairam para a cozinha, a buscar cupcakes.

Marina Costa

2 comentários:

  1. belo texto!
    (como convem à uma boa cronista)

    parabens!

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  2. Muito obrigada! Confesso que me diverti criando a cena!

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