terça-feira, 30 de outubro de 2012

A Bruxa foi solta

 

 
Ela está aí, escondida na sua mãe quando ela te liga no exato momento antes de você fazer aquela besteira mal influenciada pelo amigo que ela nunca gostou. Está de mãos dadas com sua avó, que recebe sua visita surpresa te presenteando com o seu bolo de ameixa favorito, e nem época de ameixa é. A bruxa está no seu armário e pula para fora na hora em que você finalmente decide não receber mais as flores daquele babaca que sempre te apronta uma. A bruxa está solta quando você e suas amigas gargalham noite a dentro, achando que o mundo pode acabar em tequila e fofoca que para vocês está tudo é muito bom. Podem queimar, jogar pedra, procurar sinal do diabo. Podem colocar sal na porta da sala e lanterna na abóbora para iluminar a escuridão que dizem vir com elas. Mas nada vai parar essa revoada feminina que desde que o mundo é mundo se espalha noite a fora, haja Lua ou faça Sol. Mais dia menos dia a bruxa vem, para te lembrar que toda mulher plena, que todo olhar de ressaca, que todo sorriso de Monalisa hora ou outra vai despontar no rosto daquela sua feiticeira favorita, mostrando porque em tempos menos esclarecidos jogaram na fogueira nossa imagem divina, tentativa inútil de sufocar esse incrivelmente fantástico poder de criação.
 
Marina Costa
 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Notícias



A nuvem cinzenta refletida nos olhos verdes divergia do sorriso claro e resplandecente. No peito irradiava um calor de aconchego, que se espalhava pelo corpo inteiro e explodia nas pontas dos dedos, tocando com amor um pedaço de papel. De longe se via naquelas mãos um misto de saudade e bem querer. Sabe-se lá como, despertados e despertos pelo desconhecido que em poucas horas de convívio tornou-se tão necessário. Troca de ideias e ideais, gostos, temores e amores. Foi assim que ficaram conhecendo o que nem eles mesmos sabiam. Há limites entre eles que como muros negros se impõem. Separados por milhas e milhas de terra, rocha. Longa distância percorrida todos os dias graças a modernidade da fibra ótica que faz traduzir as palavras escritas em sussurros sentidos e beijos de pé de ouvido. Assim foi até a tarde em que ele recebeu aquele bilhete, ali do início da história. Um papel brilhante e amarelo que trazia notícias do lado de cá. Causando alegria pela doçura da escrita e pela emoção do dizer. Eram poucas linhas, na verdade. Eu te amo, e estou indo te ver.

Marina Costa

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Porquê não?



O anúncio abaixo, apesar de fora do contexto, foi publicado em uma revista de automóveis, graças a criatividade da leitora:

“Eu não sou um avião. Mas também não sou um calhambeque aposentado. Estou mais para uma caminhonete 1.8. Compacta, acelarada, firme e com muita bagagem. Intelectual, obviamente. Por isso estou aqui a sua procura. Você, um jipe de estrada, acostumado a solidão de quem é incompreendido. Você que acampa com sua lona em qualquer vale gramado só para ver a lua nascer. Estou procurando sua conversa sobre astronomia, seu desprezo pela astrologia, sua admiração pelas rochas milenares e sua vontade de abrir asas sobre o mundo. Quero partilhar da sua estante literária e de um cantinho na sua mala para juntos gastarmos muita sola de sapato. Quem sabe, enquanto troca um pneu furado na estrada, te fazer uma massagem na nuca ou rir da sua condição de macho dominantemente mecânico. Em resumo, eu não quero alguém que só pense na troca de óleo, desprezando a categoria do motor. Preciso de um admirador de engrenagens. E, junto com ele, uma vontade gigante de fazer o resto do mundo comer poeira.”

 Dias depois, foi respondido. Não por um jipeiro, como era a pretensão. Mas por uma experiente motoqueira de trilhas.

Marina Costa

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Seiva




Houve, na história que ainda não terminou, tempos de abundante fartura. Era tanto e dado de tão bom grado que parecia que jamais faltaria, por mais que continuasse aquele esbanjar orgulhoso de quem recebe mais do que pede. Faltou sabedoria para entender que a vida não é uma corrente de ida só. E foi assim que um dia por motivos muitos, justos e não, o que antes transbordava pleno e claro começou a minguar, adoecido. De torrente forte e contínua passou a um gotejar oscilante, ameaçando afogar o que antes nutria.Assim brotou o desesperou na fonte rasa que gritava e nem todas as nascentes do mundo entenderiam como era para ela necessária que aquela fluência não se extinguisse. Não terminasse. Percebeu-se que a taça, antes sempre vazia, estava meio cheia e não era mais possível permitir que aquele líquido secasse. Pois se fez tanta coisa florir... Inundou tanto sentimento seco... Alimentou choro e risada como pão nenhum poderia... E haveria agora de morrer? A fração mínima que hoje ainda existe é encorajada com verdade e contrição. Há esperanças de que volte a correr, volumosa como o rio farto de outrora. Há sonhos ainda a regar. Vida a nascer. Sempre há.

Marina Costa