sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Seiva




Houve, na história que ainda não terminou, tempos de abundante fartura. Era tanto e dado de tão bom grado que parecia que jamais faltaria, por mais que continuasse aquele esbanjar orgulhoso de quem recebe mais do que pede. Faltou sabedoria para entender que a vida não é uma corrente de ida só. E foi assim que um dia por motivos muitos, justos e não, o que antes transbordava pleno e claro começou a minguar, adoecido. De torrente forte e contínua passou a um gotejar oscilante, ameaçando afogar o que antes nutria.Assim brotou o desesperou na fonte rasa que gritava e nem todas as nascentes do mundo entenderiam como era para ela necessária que aquela fluência não se extinguisse. Não terminasse. Percebeu-se que a taça, antes sempre vazia, estava meio cheia e não era mais possível permitir que aquele líquido secasse. Pois se fez tanta coisa florir... Inundou tanto sentimento seco... Alimentou choro e risada como pão nenhum poderia... E haveria agora de morrer? A fração mínima que hoje ainda existe é encorajada com verdade e contrição. Há esperanças de que volte a correr, volumosa como o rio farto de outrora. Há sonhos ainda a regar. Vida a nascer. Sempre há.

Marina Costa

3 comentários:

  1. Tem dores, nesse nosso mundo, que inacreditavelmente são menores. Como uma sequência de socos na cara, por exemplo.

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