quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Guarda Roupa



Já diz Pessoa que chega uma hora em que aquelas roupas usadas, surradas, com a forma do corpo precisam ser deixadas de lado. Pessoa, do alto de toda sua sabedoria, te pergunto se você foi capaz de deixar aquela camisa velha, macia, quase companheira, das noites de preguiça, de despreocupação, de relaxamento. Questiono se você foi capaz de abandonar aquela calça certa, bonita, que te deixava diferente no meio de um monte de gente parecida. Como, Fernando querido, como fazer isso, sem sentir falta do contato do tecido na pele, do fácil achar na gaveta sem nem mesmo olhar, da certeza do que vestir, seja lá qual a ocasião...
Entendo a necessidade do conselho que você dá. Mas ensina a deixar ir sem sentir que se vai junto com o retalho uma parte de mim . Sem lamentar pela beleza da roupa que talvez nunca mais apareça em outra moda...
Desapegar desassossega a gente, Pessoa. Quisera Deus que não crêssemos no futuro. Daí ia ser uma tranquilidade só viver e deixar morrer.


Marina Costa

domingo, 18 de novembro de 2012

Minimalismo


Pois e então que de manhã eu acordo assim, meio que com dó de mim.
Espano o pó dos olhos secos. Inspiro e sopro bufando o ar frio e parado ao meu redor.
Já é tempo de um novo sorriso, me diz a parede.
Café quente. Gato mia. Chuva a respingar.

A vida não vai esperar o findar do meu infinito pensar.

Marina Costa

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Sobre como amolecer com pedras


A moça na ponte, joga pedrinhas no lago para fazê-las quicar. Arremesa com jeito, a mão meio torta para tentar mandá-las ainda mais longe e fazer ondas ainda maiores. Seu bolso vai cheio de cascalho e sua cabeça de ideias tristes. A moça, ao atirar as pedras imagina lançar longe seus problemas e decepções. E assim, ela passa a tarde melancólica sob aquela ponte, a devanear.


Chateada, desamparada, ela olha para os lados do problema... e só consegue ver dois: o de dentro, caótico, e o de fora, solitário. O lago poderia ser todo tomado pelos seus arremessos mas ela tem a impressão de que nunca achará um motivo para deixar de se perturbar. São essas coisas do coração que pensou nunca iriam lhe afetar.

Até que chega um guarda, com muita cara de duende do carvalho, e lhe diz que ela não pode jogar pedras ali, pois afasta os peixes dourados. Epifania! Quando ela atira suas pedras chatas, ela afasta o brilho alheio! É isso! De repente, de círculo ela passa a ver um hexágono! E os outros lados, não amassados, são tão simetricamente belos que ela se ilumina.

Saltitante, ela beija o guarda e desanda a correr pela mata. Passam flores, passam pássaros, vai se o sol das seis da tarde. Em seus últimos e fracos raios ele dissolve no rosto dela as últimas rugas de incerteza. Ela corre sorrindo.

Toca a campainha, com o coração aos pulos. Ele não está. Roda nos calcanhares, chateada por um milésimo. Se lembra das pedras e da promessa a si mesma de que não mais iria atirá-las. Optou então pelo sorvete de gengibre na cafeteria da esquina. E quem sabe encontrar um belo livro no sebo ao lado.

Marina Costa

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Daemos Nos

 
Aperta o coração saber que posso acordar e não ouvir seu bom dia, um dia. Dá um nó na garganta ouvir um "hoje não posso" e tentar frear toda espécie de perversão que passa agora pela minha cabeça sobre esse seu não poder. Dói o estômago não saber o que você faz agora enquanto eu deixo meus afazeres para tentar imaginar. E me canso, até os ossos, de pensar em você, conjecturar sobre você, planejar coisas com você, tentando descobrir se você vai estar sempre aqui ou se eu vou conseguir ficar...
 

Esse círculo quebrado que me mantêm em seu interior se tornou um mundo, partido, onde piso em cacos e choro vidro. Quando  acontece de subir o sol sobre esses pedaços espalhados, ah, como eu sorrio, e como me sinto em paz no teu colo quente. Por isso que sempre guardo a mala no armário. Também por isso que penso em fazê-la todos os dias.

Não é culpa sua. Minha, menos ainda. É meu constante pensar que me dá essa inconstância toda. Talvez eu seja só mais uma dessas pessoas que acham pecado ser feliz e preferem o mártiro diário. Te coloco como mártir. Me coloco como vítima. Ou eu sou a heróina redentora de tua humana sina. E prendo a testa no muro das lamentações na esperança de que um Deus piedoso me ouça e me dê o que peço. Te ilumine ou me faça mais madre Teresa.

Coitado de Deus, com meus pedidos obscuros. Com nossos ideais tortos. Ele faz bem em passear pelo campo ao invés de me ouvir. E eu faço bem em ir cuidar da vida que deixo de lado para pensar nos problemas que a bem da verdade, nem sei se tenho.



Marina Costa