sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Sobre como amolecer com pedras


A moça na ponte, joga pedrinhas no lago para fazê-las quicar. Arremesa com jeito, a mão meio torta para tentar mandá-las ainda mais longe e fazer ondas ainda maiores. Seu bolso vai cheio de cascalho e sua cabeça de ideias tristes. A moça, ao atirar as pedras imagina lançar longe seus problemas e decepções. E assim, ela passa a tarde melancólica sob aquela ponte, a devanear.


Chateada, desamparada, ela olha para os lados do problema... e só consegue ver dois: o de dentro, caótico, e o de fora, solitário. O lago poderia ser todo tomado pelos seus arremessos mas ela tem a impressão de que nunca achará um motivo para deixar de se perturbar. São essas coisas do coração que pensou nunca iriam lhe afetar.

Até que chega um guarda, com muita cara de duende do carvalho, e lhe diz que ela não pode jogar pedras ali, pois afasta os peixes dourados. Epifania! Quando ela atira suas pedras chatas, ela afasta o brilho alheio! É isso! De repente, de círculo ela passa a ver um hexágono! E os outros lados, não amassados, são tão simetricamente belos que ela se ilumina.

Saltitante, ela beija o guarda e desanda a correr pela mata. Passam flores, passam pássaros, vai se o sol das seis da tarde. Em seus últimos e fracos raios ele dissolve no rosto dela as últimas rugas de incerteza. Ela corre sorrindo.

Toca a campainha, com o coração aos pulos. Ele não está. Roda nos calcanhares, chateada por um milésimo. Se lembra das pedras e da promessa a si mesma de que não mais iria atirá-las. Optou então pelo sorvete de gengibre na cafeteria da esquina. E quem sabe encontrar um belo livro no sebo ao lado.

Marina Costa

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