segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Pelos elos das eras

 
Passaram meses para o ano ir e nos deixar aqui sentados, na soleira da porta, com olhos vazios e mãos abanando, pedintes de tempo, de sentimento  e entendimento da vida. Horas que escorreram e levaram, diluídos, desejos insatisfeitos, ideias abandonadas, sorrisos contidos e abraços escusos. O peito cheio de frustrações que vão sendo enterradas nas covas da memória. É tempo de novos intuitos, novos projetos de ser outro humano, novas promessas de melhorias insípidas e utópicas. Mais amor ou menos guerra, talvez ler poesia. Se não há sonhos para edificar a passagem de outro ano não há porquê fazer tal travessia. Resolutos, levantamos e entramos, fechamos a porta na cara do passado e respiramos fundo para o novo mas já conhecido futuro. Haverão, sabemos bem, planos não concretizados. Desapreço vasto e apego incerto. Egoísmo obcecado. Mas sempre com esperança de que tudo mude no virar infindo do calendário. A vida não pode ser apenas ficar a ver a areia cair. Há que se aprender a sempre reconstruir castelos de pó... Para esquecer que o tempo nos soterra por mais que tentemos não parar para olhar.
 
Marina Costa

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Então é Natal

 
“Não, eu não aceito comprar um falso, pirata” (vide link no final da crônica).
 
Então eu não como bem, não vou ao cinema nem mesmo ao teatro. Não estudo nem viajo, porque tudo que me importa é mostrar para eles que estou a rigor, vestido de acordo, posso participar do que não fui convidado mas os comerciais da tv me intimidam a ir.
 
Bolsa família não dá para comprar calça de 300 reais que uma adolescente precisa. Tênis de mil é estratosfericamente fora do orçamento, mas é obrigação tê-lo para mostrar dignidade no rolê.
 
E sobe a classe sobe a ostentação. Não pensem que dívida é luxo de favelado não. Há quem, no meio da boa elite mineira, se endivide por compras semanais em Nova York. Com direito a jatinho particular. Para ir de manhã e voltar de tarde. Conto o milagre mas se falar o santo arrisco meu emprego.
 
Enfim, é natal. E as lojas vermelhas e verdes estão monstruosamente sorridentes. Os falsos velhos Nóeis estão ainda mais fajutos em suas barbas cada ano mais plastificadas. A cidade brilha com luzes que em Brumadinhos da vida fariam envergonhar o SUS, tão sem recursos. Falta educação mas quem liga se jinglam os bells?
 
Mais um ano eu fico aí, deprimida, a torcer o nariz para as bolas coloridas. As notícias são as piores possíveis mas Cristo vai nascer outra vez e tudo vai ficar harmonicamente em paz… Até chegar janeiro e com ele a fatura do cartão de crédito estourado, o aluguel atrasado e o iptu. Para esfregar na cara dos ingênuos que nesse mundo de capital, natal é para pouca gente.
 
Feliz natal (para você que tem)!

Marina Costa


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Você não precisa namorar (ou noivar, ou casar ou qualquer coisa assim)?

Essa crônica foi motivada por este post aqui ó, que gerou uma discussãozinha na minha timeline e que está, ultimamente, muito em voga nas mesas de bares da minha vida…

 
Marina Costa


Pois é, Baldizinho querido! Fica fácil e poético escrito assim né. Mas e você? Tá solteiro? Com o coração bem resolvido, seja junto ou sozinho? Ahhhh, eu não acredito não. Sabe porquê? Porque o inferno não é você! São os outros…

Resumindo, o problema todo se divide em, necessariamente, 3 aspectos com seus respectivos subs:
a) Enfiar isso na cabeça das pessoas de forma que elas entendam que as suas conexões neurológicas são embasadas nos próprios sentimentos raciocinados e não no simples fato, vulgo recalque, de que no final das contas elas se casaram e você (ainda) não! Se prepara, que a cara para o discurso de “Eu sou solteira e feliz” é sempre a de “Ah vá…”
b) Mostrar pro mundo que a frase antes só do que mal acompanhado é potencialmente muito mais livre e ampla do que parece: sozinho você aprende a se virar e edificar para que nos intervalos com uma eventual má companhia hajam bons momentos, justamente pela condição dela e você serem más ( ou traduzindo, “aquele que foge dos padrões tradicionalmente aceitos”).
c) Viver em sociedade significa se sujeitar a aceitar fases na vida. Como eu não conheço muitos ermitões por aí, temos o resultado da aceitação: você VAI ser infeliz em algum ou muitos aspectos, ponto. Resultado da negação: você VAI ser de certa forma excluído e se sentir incapaz, terminando infeliz em algum ou muitos aspectos. Ou nas palavras de Margareth Mead, ganhará o eufêmico rótulo de “inadequado”.

Se é para apontar responsáveis, na minha opinião, os culpados são 3:
a) Walt Disney: com sua infeliz (para não dizer maldita) ideia de amor romântico para infantes. Se deus existe, hoje você está queimando no inferno eterno (a rixa aqui é pessoal, confesso);
b) Seus pais: cientes da m* que é a adequação do ser social te prepararam para cumprir um papel ridículo num teatro inevitável e não te prestaram um auxílio decente  por medo de você ser o tão temido “revoltado”.
c) Seus avós: que deveriam ter mandado a tia velha trabalhar e conhecer o mundo ao invés de buscar um marido come, dorme e reclama, futuramente dependente de viagra como se isso resolvesse a vida vazia dela.

A solução também são 3 (porque se dois é bom…):
a) Leia, leia, leia!!!!! Regina Lins, Simone de Beauvior, Durkheim. Tanto para os meninos quanto para as meninas. Esclarecimento e conscientização da própria situação é a única coisa que pode livrar as pessoas das amarras sociais sem autolamentação ou culpa. Dane-se quem acha que você deveria casar se você acha que não. Mas até chegar a esse nível de desprendimento da opinião alheia… haja terapia.
b) Responda com a boca cheia para amigos alienados, parentes condicionados e afins: “Na boa, QUE-RI-D@, vai cuidar da sua vida, que por sinal é horrorosa ou você não se preocupava com a minha!” Se as pessoas fossem mais francas ao invés de mais falsas a medida que o tempo passa, as coisas estariam espinhentas mas muito melhores, emocionalmente falando.
c) Se cerque de gente que está mais preocupada em conhecer o mundo e outras culturas milhares e saia do convencionalismo da sua estagnação atual. Isso vai significar levantar (e muito) do sofá além de romper laços com pessoas que você acreditava únicas. Já dizia papai, para finalizar: o cemitério, minha filha, está cheio de insubstituíveis. E cuidado com os canalhas…

domingo, 15 de dezembro de 2013

Antonín

(Publicada em 26.08.2012 - vidasetechaves.wordpress.com)

Entediado com o trabalho rotineiro e interminável, ele lançou pelo basculante superior um olhar acuado e triste. Queria ver-se livre de mais um dia sempre igual. Ouvia gritos infantes e folhas balançando ao vento da tarde e sentia-se como uma estátua de chumbo, presa àquela cadeira pequena. Era todo goma. Goma e cortesias falsas. Mas sonhava-se em chinelos de dedo. Largas roupas coloridas, distribuindo abraços quentes.

Observando atentamente o virar das horas no relógio digital, afastou-se com ímpeto da máquina contadora e desceu correndo as escadas, rumo a liberdade da rua fresca de por do sol. Voltou o sorriso, o peito inchado e a elasticidade de menino. Estava de novo sem rédeas. E agradecia por isso, aos deuses dos a toa.

Veio outra mudança de relógio, ditando duramente uma nova semana, prometendo os mesmos compromissos e bons dias mecânicos. Mas ele não se levantou. Dessa vez a cama estivera vazia por todo o final de semana. O gato miava de fome e incerteza.

No quarda roupa o terno guardado. Na gaveta, o crachá engavetado. Foram-se da cômoda as meias e poucas bermudas velhas. O resto era caminho a ser deixado. Um cachecol para proteger do frio enquanto uma morena libertária não aparecesse em alguma esquina. E pelas ruas infaustas de uma segunda feira comum, parece-me que ouvi um feliz assoviar. Lembrava a sinfonia nº 9. Em mi menor.

Marina Costa

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Mas e a vida

 
 
Tenho comentado amiúde sobre morte de jovens amigos, conversa casual, e as pessoas, chocadas, me dizem que trato o tema com extrema naturalidade... Mudo o assunto para interesses sexuais diversos e elas, coradas, me censuram, argumentando que eu abordo certos tabus de forma prática demais! Acuada, reclamo do absurdo que é nossa forma subjugada de vida na cidade grande, desajustes que aceitamos tão facilmente como violência banal, trânsito abissal e coisa e tal e então elas me olham, complacentes, dizendo que eu deveria aceitar melhor certas coisas da vida. 
 
Serei eu ou o mundo a precisar de uma urgente reformulação de conceitos?

Marina Costa

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Dó: S.m. Do latim, dolus. Do grego, doloridus. Do bom português, aquilo que se sente de ruim quando toda expectativa em algo bom é dissolvida.

Marina Costa

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Dia da Namorada



Depois de tanta briga e confusão, tanto não que eu ouvi, tanta mudança de planos, tanto vamos ficar por aqui hoje eu acordei com vontade de amar. De abraçar com força e beijar com fúria. De doar a mim mesma. De pegar na mão e cuidar. De sorrir e fazer feliz. Outra pessoa.


Marina Costa

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Haicai Saudoso




Marina Costa

Sob as nuvens
e o oceano
partir. Em um ano.


sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Epifania de Crepúsculo

Foto Marina Costa - Alter do Chão/PA - Brasil

Quando o sol está assim, morrendo resoluto, eu me pego melancólica, a delirar pela janela aberta num pensar laranja-opaco, onde percebo a vida como coisa frágil, cálice transbordante de um sagrado sem fim. Se pôs.

Marina Costa

domingo, 10 de novembro de 2013

A espreita de Morfeu


 Há um certo prazer na ânsia de não saber o que vai na mente de outrem, que age com ardor da mesma forma com que se recolhe sem cerimônias. Uma espécie de premonição satisfeita de que as coisas estão nos trilhos mesmo que deles não se possa ver sequer o contorno. A falta de rumo certo leva ao palpitar delirante da surpresa por vir. Ao mesmo tempo provoca certo receio frustrante de tudo não passar de grandes castelos de pó... É a eterna busca do não saber. A vontade de ter a todo momento algo novo a tecer. Eros, diriam os clássicos, a rir dos humanos desassossegos. O fato é que no balançar da cabeça, dissipa-se o sonho acordado e volta a certeza de que tijolos somente se firmam se envoltos por argamassa singela.

Marina Costa

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Empirismo Sentimental


 Quantas e quantas ideias brilhantes já se embolaram na mais cômica lama ao confrontarem um belo sorriso? Muitos e muitos argumentos bem construídos terminaram por virar pó ante um belo par de pernas. Diversos pedidos imperativos já viraram servidão senil sob determinado olhar. E há quem ainda queira teorizar, racionalizar, aclamar o cérebro como nossa mais sublime evolução! Se toda hipótese vira fumaça quando dispara o coração não seria mais sábio e sadio se nossa mente acompanhasse, sem relutar, a emoção?

Marina Costa

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Motivo

Ensandecida, ela rodopiava pela sala como uma criança histérica descobridora do desequilíbrio. E caía e ria e se punha de joelhos para de novo pular. Dava cambalhotas, abraçava as próprias pernas, rebolava e remexia, extasiada de tanto gritar… E nesse catatônico estado, nesse torpor louco de alegria se deixou levar até o cansaço que a acomodou gentilmente no sofá, mão sob o rosto, sono dos puros, sorriso de quem subitamente alcançou o paraíso. Denso silêncio se fez. Em cima da mesa o envelope rasgado ao meio. Te levo flores, querida minha, quando em breve chegar. Eu vivo.

Marina Costa

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Entre tons de sons

 
 
A luz pouca que entrava pela janela mínima era um pálido reflexo de uma lua certa mas escondida. O som da noite se calou para deixar passar notas e falsetes discordenadamente errantes pelo ar. Era o tom. Dentro, havia um silêncio turvo de contemplação. Os olhos nada viam, mas a melodia desajustada hipnotizava misticamente mãos e braços, transformando o frio do chão em um aconchegante e familiar abraço. Ouvia-se um som. Por horas o tempo suspenso, onde palavras retiraram-se cabisbaixas por terem perdido sua função. Um espiritual dissonar cozia em fios o desatino que prendia de estranha forma a atenção. Era uma desejada prisão. Até que fez-se a luz de mentira e os sonhos, quase palpáveis, chocaram-se contra a parede branca. O fim fez-se novamente presente, convidado sempre adiantado de momentos exímios. Mas a sonata após tocada nunca termina e vai repetir-se na mente enevoada. Sempre a entreolhar o instante de novamente se fazer soar.
 
Marina Costa

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Quando não dizer faz sentido


Tem uma hora no convívio, no "tête-à-tête" diário, em que você já falou tudo e não tem mais assunto de onde puxar. Quando arruma, é baseado numa intimidade pretendida, quiçá fingida, que gera o esperado diálogo solidificado num teatro tal que a realidade sóbria termina por reclassificar como impróprio. Fica um sim pouco sonoro, dito em lugar de um desprendido não e o ponto final é tão grande que nem o gato de Alice sorriria maior e mais sem graça. Ouve a voz profunda do nada e opte sempre pelo denso silêncio... Tão repleto de verdadeiros significados que somente a sincronia fina e sincera é capaz de acatar. Onde não há a vulgaridade das palavras não tem como errar. E assim quando o realmente necessário for dito será tão pleno e construtivo que retrucar se fará inútil e um aperto de mãos quentes bastará para ampla e cúmplice compreensão.
 
Marina Costa



quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Lendas

Chorou até dormir, como na noite anterior e naquela antes dela. Exausta de lágrimas e esperanças frustradas ao ver que o dia raiou, alisou o rosto inchado com as costas da mão e apoiou no colchão para se erguer. Uma luz tímida entrava pela fresta da cortina quando um som agudo ecoou pelo quarto fechado. Não deixou seu coração saltar dessa vez. Ao segundo ressoar, entretanto, levantou-se de um pulo e se apoiou no parapeito da janela, lançando além seus olhos límpidos na busca desesperada de alimento para seus sonhos. Viu apenas andarilhos em farrapos. Sujos, pobres e fracos como seu herói jamais seria. Veio o aperto no peito e o choro contido. E a lágrima abriu caminho para o sorriso, quando pingou sobre um lírio misteriosamente deixado na janela, na forma de promessa. 
 
Marina Costa

sábado, 5 de outubro de 2013

Cadência


Alta lua escura, na noite mais profunda que deixa assim brilhar as estrelas esquecidas. Olhos pregados no céu sem nuvens, límpido e claro a seguir os pensamentos em cadência, ainda que negros. Há um que de tensão duvidosa, pesada como o ar da quieta escuridão. O fluxo de memórias frescas se mistura às fantasias criadas até que um leve pestanejar leva à um sonho insone que abarca toda a ilusão desejada. São visões turvas mas brilhantes de um sorriso, claro como o dia, que se funde ao sol, quente como o peito,  cheio de uma torrente de sentimentos... Desagua em pés lavando uma tristeza surgida de um passado tão velho quanto o tempo e tão seco quanto cinzas. Inunda e acorda ainda antes da aurora, com o susto a espantar as visões do futuro. Alta lua escura, na noite não tão densa. Sente uma vontade imensa de rir da vida. E o canto de um pássaro azul, vindo do mundo da mente, coloca em dó maior um ponto final no pensar sem fim. Há de haver sempre outro dia, reflete feliz; até que tudo vire pó. E nos faça sonhos...

Marina Costa

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Pedreiragem



- Mas olha se eu não vou!! Disse o homem de laranja deitado, semi adormecido sobre um boné empoeirado que tampava parcialmente seu rosto bronzeado.
- Eu vou também!! Retrucou o de cigarro nos lábios, olhos perdidos no horizonte da obra como a pensar numa grande questão.
Eu reconheço a direção do gracejo e faço cara de paisagem para terminar de passar. Normalmente responderia com algum desacato atrevido aos dois cidadãos. Outro dia ainda chamei um jovem, confesso que até bem bonito, de "aleijado tarado", visto que estava se apoiando em muletas e me lançou desavergonhadamente um adjetivo extremamente abusado que opto por aqui suprimir. Confesso que eu me encontrava em uma péssima manhã. E mesmo se estivesse em uma boa. O fato é que quis humilhá-lo dada sua condição claramente dependente e seu atrevimento frente ao meu pequeno tamanho e rosto infante. Talvez se eu fosse uma mulher maior, ele não me importunaria. O fato é que a expressão que ele me lançou de volta me fez perceber que atingira o alvo. Ele se desarmou. E sinceramente espero que tenha receio em mexer com mulheres na rua de novo. Principalmente no sábado cedo. Muito cedo.
Agora voltando ao motivador dessa crônica, o que me impediu de mandar as favas aqueles dois pedreiros semi conscientes de seus atos (reza a lenda ser a cantada tão automática que caso a mulher volte interessada, para lhes passar seu telefone eles perguntam, confusos, se o problema é hidráulico ou elétrico...) é que me vi caindo na máxima tantas vezes ouvida de que: uma mulher se irrita quando mexem e se aborrece quando deixam de fazê-lo. Essa questão freudiana, dúbia e machista, me colocou em uma sinuca de bico, considerando que apesar dos meus amplos estudos históricos e práticos do feminismo ultra independente, devo confessar haver em nós uma certa vaidade que realmente pode vir a se ofender na falta do já esperado perturbar.
A questão é que a cantada, a grosso modo, nos transporta para a condição de objeto inanimado que tanto lutamos para deixar de lado, mesmo tendo no time contrário mulheres frutas a ofertarem em abundância o que deveriam racionar e distribuir com parcimônia (deveriam? machista eu?!). Mas a ausência de uma observação, um elogio, um bom dia cantado, nos transforma na figura invisível que também fomos durante muito tempo nessa era patriarcal que teima em terminar.
Antes que meus leitores se sintam enfadonhos quanto a este discorrer inesgotável sobre "mexer ou não mexer" eu darei um último conselho: pedreiros de obras, aleijados de plantão, caminhoneiros de estrada, namorados, amigos, irmãos: mesmo numa frase como "mas olha se eu não vou" pode haver certo tato delicado, ainda que com uma pequena pitada de malícia, que arrancará da mulher em sua correria um sorriso de atrevida simpatia. Lembrem-se da ternura com que se deve elogiar a beleza, seja qual seja. Posso dizer, defensora incansável das relações bem vindas, que faz toda a diferença se doar para aquilo que se diz!

Marina Costa

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Sol Mi Fa




A melodia da canção chegou aos meus ouvidos em uma tarde de certo iluminado domingo. O vento brincava entre os ramos de um velho salgueiro e o sol resplandecia em seu rosto brilhante. E ele falava. Com o resto do mundo em silêncio, entoando uma canção que eu já conhecia desde antes de ouvir o timbre de sua voz antiga. E eu ouvia. E cada quadro de sua história mágica se materializava em minha mente como se eu estivesse lá. E eu estava. Em terras distantes, com seres brilhantes, tambores ressonantes e raios luminosos nas preciosas pedras. Sol que me fez bem. Faz e fará.

Marina Costa

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Reverlado



Ás vezes, por mais campos já vistos, mais flores já tocadas, mais mãos já sentidas, mais terras exploradas, um redemoinho de acasos nos leva de volta onde tudo começa e aí, desatentos que estamos a pensar no já sonhado,  atentamos para um ponto escuro, desconhecido, naquele exato lugar onde nossa vista já passou, por muitas e muitas vezes. E aí ao explorar o desconhecido descobrimos  que o sol pode sim nascer em uma caverna. A luz brilha no oeste. Só depende do jeito de ver e da vontade de olhar.

Marina Costa

domingo, 15 de setembro de 2013

Línguas, Espumas e Olhos Travessos


Compunham a cena da noite de começo. Palavras em profusão, vindo do branco e do negro, com pinceladas de verde e pitadas de vivo vermelho. Espalhavam-se pelo ar  e ao estourar traduziam sempre o mesmo sentimento, por mais que o assunto variasse tanto quanto o vento. Algo misto de consciência, coerência, impotência e muda insatisfação. Compartilhadas assim, sob nuvens e estrelas, tais sensações ficavam a circular, como fumaça viva ao redor dos dois indiferentes ao céu que lhes ouvia. Horas tantas, alta ia, partiram dali deixando uma impressão incômoda de dúvida, gravada mais uma vez no chão. Entre não saber e não agir, como conviver com a escolha de ir? Vai. Tudo termina da forma com que todos aprendemos a lidar com essa frustração. Dando as mãos. E oferecendo um sorriso de compreensão.
 
Marina Costa

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Poço dos Desejos

Não tinha sequer uma moeda nos bolsos rotos do macacão. O tênis, velho como a estrada, chutou uma pedra com insatisfação. Também, deu de ombros, não havia o que pedir. Casa não queria, casar era algo de que fugia e o que comer, sincero sorriso e boa conversa sempre conseguia. Meio que sem rumo, como preferia, sentou para descansar do ócio na beirada do poço. Tentava ver o fundo mas era escuro de mistério, como seu futuro. De súbito uma ideia brilhante lhe ocorreu. Mochila no chão, abre o fecho e busca freneticamente um pequeno objeto que, mesmo esquecido, estava ali. Tocou na pedra fria e riu. Com as mãos em concha, olhos fechados, murmurou com fervor, sorriu com fé e lançou o cristal que tinha vindo de longe e por boas mãos. Se apoiou e esperou até ouvir a água se fechar sobre a pedra. Juntou seus poucos pertences, sorriu ainda uma última vez enquanto olhava para trás e tendo o vento por guia, partiu. Do céu, uma pluma branca caiu calmamente até pousar, devagar, na água. Era um sinal invisível de que seres mágicos concedem o que pedem aqueles que não ficam esperando chegar...
 
Marina Costa

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Reflete


Hoje, que não é agora, nesse lugar fora do tempo, há um som melancólico mas não de lamento. Talvez reconhecimento. Uma torrente de dizeres, não saberes e quereres que bate lá na frente e volta polida, brilhante, por vezes até ofuscante mas sempre esclarecendo ao escarnecer. Na hora que termina e vai-se o devaneio, por trás fica o reflexo no espelho. Há que se ver no outro para se compreender. E a imagem pisca faceira, cúmplice dessa verdade que acabam de entender.

Marina Costa

domingo, 25 de agosto de 2013

As rosas não falam



O labirinto de flores acolhe em sua densidade verde uma rosa muito branca e outra bem vermelha, ambas a desabrochar. O vento, cupido esperançoso, tenta aproximá-las com rajadas de incentivo, o que parece não funcionar. Tal qual diferem em cores, assim sol e lua só atingem uma por vez a cada volta do dia. Em comum apenas o fato de que compartilham o mesmo céu.

Se falassem, talvez tivessem muito que dizer; uma declaração sobre a beleza, uma paixão pelo mundo vibrante, vontade de sorrir ou chorar junto. Mas não há sussurro. Talvez, com muita atenção, ouve-se um suspiro de melancolia. Emitido no momento em que certo cavalheiro passa, distraído, pelo labirinto. Para, surpreendido. Olha e decidido, colhe a vermelha rosa, leva esta até sua cartola e a transforma em adorno vaidoso. Perde-se no verde das folhas até sumir em algum corredor infindo. E a rosa branca, pobre infeliz, descobre que há algo mais duro e cortante do que o silêncio. Chama-se ausência.

Marina Costa

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Ansiosismo



O relógio parou em infinitos 47 minutos de algum momento insalubre em uma manhã perdida. Olhando com ânsia o movimento aparente da  terra se torna apenas uma ilusão cortante. Bocas se abrem mutantes e braços se encolhem dissolvidos na visão impedida pelos segundos que insistem em se manter estáticos. Parou o vivo movimento infinito ao acertar a gélida quina da rotina. A mente dança entre a fúria e a sandince armando estratagemas para manter seu pulso. Traça planos para mil anos futuros. Raciocina sobre ideias a cumprir antes de sucumbir. Impulso de contactar alguém na Sibéria ou lançar um pombo correio até a mais próxima janela. Procura suplicante, na caixa  preta invisível, notícias que circulem no mundo lá fora. Música de Strauss na tentativa de acalmar o descompasso. As unhas já se foram há muito, os cabelos estão sendo meticulosamente arrancados. E por trás o zumbido do fantasma temido em seu agonizante tic taquear. Como na tumba escura de algum antepassado esquecido, o tempo retumba sombrio sem se mover. A saída se transforma em um tronco enrijecido, portal perdido. Não há como correr. As doze horas não vão bater. O ansioso e absurdo animal, prevê apenas uma hora nesse dia esquecido: a de enlouquecer.

Marina Costa

terça-feira, 30 de julho de 2013

Titubeando


O fogo crepita vermelho e vivo no fogão enquanto ela percebe, de soslaio, a neblina fria erguida no jardim. Concentra-se em vão na massa que tem nas mãos, a cabeça vai longe e solta naquelas chamas dançantes. Parece ver coisas entre as labaredas. O frio que sobe do chão de pedra não é sentido tal a força da visão. Grilhões que se rompem. Muros caindo. Gritos de luta. De ver, passa a ouvir o clamor dos que querem fugir. O pão cresce na gamela, o ar gelado se dissipa e um bater de portas a desperta desse mundo longínquo de gente livre. Cai o suor do rosto molhando o calo dos dedos. Há, assim mesmo, um belo sorriso. Não diminui o martírio. Mas alivia a ansiedade da espera.

Marina Costa

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Alocuçao


Bondade. Substantivo bonachão e querido, que sorri sincero ao ouvir seu nome. Por mais duro o semblante de quem diz, vem a necessidade de sorrir quando a boca forma tais fonemas. Repita com calma: BON DA DE! E a palavra sai como bolha de sabão, leve e solta, encostando macia daqui e dali até que por fim estoura em um espinho mais afiado, que antes servia de acento ao rancor. Os respingos da bondade borrifam o ar com uma névoa branca, brilhante, multicor. E o peito, antes oprimido pelo negrume de um pensamento intruso e malcriado se alivia na bem querença dessa palavrinhha tão caridosa.

Marina Costa

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Ao Ir


Ah, porque só quando você vai, vira as costas e bate a porta, eu caio em mim que amo você. Volta, abre um sorriso, abre os braços, fica aqui comigo enquanto eu passo roupa, lavo prato. Como um bibelô frágil, olhando de soslaio. Não fala nada, tenta respirar brando, só preciso te sentir ali, a olhar o tempo passar, a fazer parte do meu mundo que é tão aqui dentro. Fica hoje. Não leva embora minha inspiração. Porque so quando você vira as costas e vai embora, só quando ouço o trinco ranger, é que dói meu peito desse jeito feio e desabam meus sonhos de fumaça colorida. Só quando você vai.

Marina Costa

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Equadorismos

 
São tantas as formas virtuais de vida que me sinto meio que morta e afogada no anacronismo de minha ânsia de contato. Sinto falta de abraços. Anseio por brindes e sorrisos. Sinto falta, por vezes, do tapinha nas costas que tanto abomino. Spam estraga meu dia. Minhas amigas, que tenho em tão alta conta, acham que me animam com uma mensagem truncada da Lispector, que circula na internet. A tela é fria. E o túmulo de Clarice, revirado por sua revolta a falta de direitos autorais. Que não sejam direitos. Mas que sejam leais. Saio do trabalho ao léu, minguada e sozinha como a lua lá em cima. Todos on line. Ninguém por perto. Me sento no bar cujo garçom me apresenta o sorriso mais honesto. Peço a cerveja mais cara para retribuir sua gentileza. Abro um livro. Miller tem me feito companhia. Discordo de sua ânsia pelas fêmeas parisienses. Mas pelo menos ele se senta comigo gastando sua filosofia. Não gosta de mulheres inteligentes. Quem gosta afinal? Acho que bebi demais. Ninguém para dividir a conta. Meu pé esquerdo vai de encontro ao direito e os dois me levam para casa, sem que eu possa reclamar. Freando o ímpeto de todo dia, me recuso a ligar o computador dessa vez. É meu protesto bêbado. Quase uma revolução. Mas mudo de ideia. Escrevo uma crônica. Me sinto vingada. Alô, todos vocês, protegidos no calor das suas casas. Eu os detesto. Mas não posso viver sem tê-los por perto! Voltem para mim, brado pela janela. O vizinho me manda calar a boca e dormir. Penso em citar Diderot. Esqueço no momento seguinte. Lembro de uma vodka no congelador. Penso em Trostky. Morreu no México. Nunca fui ao México. Onde fica o México? Vou procurar na internet. Acaba a luz. Me estranha o fato da escuridão ser igual de todos os lados. Pensando nisso, durmo o sono dos alcoolicamente alterados. Profundo e sem sonhos, esperançoso de que o mundo mude enquanto a noite passa. Ou eu mude de mundo, quem sabe do que é capaz o literato que nos dá vida. Boa noite Henry.
 
Marina Costa

domingo, 30 de junho de 2013

Florescer



Tem aqueles que plantam sem vontade, regam por obrigação e quando não obtém um caule forte abandonam o terreno sem pensar. Nômades de coração. Alguns dão tanto amor, tanta atenção que esquecem de cuidar de si e não enxergam o resultado por culpa de estranha auto inanição. Há outros que semeiam tanto e sem querer, a torto e a direito, que terminam perdidos e cegos em seu próprio labirinto florido. E certos pobres, descrentes de seus talentos, conjuram contra qualquer forma de plantação. 

o equilíbrio, como tudo na vida, vem de três formas de levar: saber o que plantar, cultivar com alegria e regar com amor transbordante. Os frutos desse plantio não são outros que não doces e belos. Apetitosos e prósperos. Tal é sua graça que naqueles que passam não despertam luxúria ou inveja. Geram vontade de permanecer, bem querer enternecido. Da fidelidade do jardineiro vem o aroma que perfuma a vida. É assim que lagartas e borboletas (percevejos, formigas, joaninhas e rolinhas) vêm todos juntos e unidos, festejar num mesmo jardim.

Marina Costa

terça-feira, 25 de junho de 2013

Intempéries


Como falam! Como clamam, como apontam, como criticam. São muitas cabeças, muitas ideias, muitas vozes e opiniões. Uma infinidade infinda de direções. Quem seguir? A si? Ao outro que também não sabe bem para onde ir? Há uma fome, uma fúria, um vazio que tal qual o universo não se sabe como será preenchido. Há milhões de letras sendo escritas, lidas, reeditadas, compartilhadas e repartidas. Existe uma coragem que de forma honrosa encobre o medo do final do túnel. Esperança, teremos? Um herói, precisamos? Quem sabe uma força vinda da estratosfera com flores frescas e novos frutos de sabedoria. Vai-se o momento de meditar. É necessário pegar a bandeira e continuar. Até o precipício. Nossos ossos, ao futuro, hão de dizer do que fomos feitos. E o silêncio que se fará, solução ou não, será o retrato claro de que a paz só pode vir dos gritos.

Marina Costa

sábado, 15 de junho de 2013

Epistemologia de Cadarços


Eu reparo o mundo. Meio que descaradamente mas não por sem vergonhice, deixo claro. Reparo por certo interesse antropológico, penso, algo externo e incontrolável ao meu tímido bom senso. Gosto de estar sozinha em lugares públicos cotidianos e observar atentamente; uma espécie de perversão reprimida sem motivos. Restaurantes, cafés, lojas de departamento, ônibus, livrarias... Me ponho a analisar, sempre oculta pelo disfarce dos fones de ouvidos, as personagens que  aparecem nas mais diversas cenas. Velhinhas, homens idosos, casais homos e heteros. Crianças atentas e pais perdidos. Adolescentes desavisados e desinibidos. Cães sarnentos. Gordos pombos. Reparo em toda e qualquer espécie de trejeitos. Modos afetados ou contidos de falar. De agir sob influência ou emoção. De atuar inconsciente. Olho muito. Mesmo. E sempre me surpreende quando se dá aquele momento em que, por espécie de enigmática hipnose, me olham de volta, conscientes do indizível. Julgo tal ato fantástico exemplo de nosso sexto sentido. A capacidade extra sensorial do reparado reparar o reparador no exato instante da reparação. Nesse momento de constrangimento, quando me sinto questionada pelo silencioso o que você está olhando, me envergonho da minha obstinada curiosidade atrevida. Desvio os olhos. E é quando se ilumina outro ponto de minha observação. Saltos, bicos finos e largos. Chinelos velhos, sapatilhas folgadas e encardidos cadarços. Vejo a simpatia, a apatia, a revolta que o rosto esconde ou estampa afirmada ou camuflada. Compartilho ou repudio sentimentos. É no extremo final do corpo que concluo meu estudo do objeto e posso me voltar tranquila para o resto do mundo outra vez. Seguir o dia olhando outras vidas.

Marina Costa

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Sobre estar só


 As vezes a gente fica sozinho quando o resto do mundo esvazia. As vezes vai-se aquela companhia tão desejada porque um vento enfurecido resolveu esparramar bagunça no coração. Depois de passado o furacão, sem muito mais o que fazer, é costume triste a gente sentar sobre tudo e contemplar os destroços. Para todo lado, páginas arrancadas e vidros quebrados, pedaços caídos perto de caixas vazias. Os olhos queriam encher-se de água ante essa visão. Mas a alma está seca e limpa. Resignada. Lutar contra a força que muda a vida é tão inútil quanto lutar contra a certeza que traz a morte. O que fazemos então é levantar e bater a poeira da roupa. Respirar fundo e arregaçar as mangas. O trabalho é dolorido porque cada parte quebrada é repleta de lembranças. 
Mas lá longe, do outro lado das paredes dessa casa emoção que fica no peito, uma réstia de sol pretende brilhar em algum tempo. O sorriso tímido já pode pensar em armar-se de novo para uma próxima cena. Vamos juntando os cacos.

Marina Costa
(18.10.2010)

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Lua Nova



Sobre o céu escuro e tempestuoso subiu uma nesga prateada, fraca e pouca como falso brilhante. Ergueu-se tímida e aportou-se recolhida num canto longe qualquer do cosmos. Paciente, hábito aprendido com a eternidade, contou mais uma vez os dias e a cada minuto de escuro silêncio encheu-se de um pouco mais de luz. Ao final do período de trevas devidas, ela era o disco redondo, reflexo soberano de águas no céu, diamante bruto da noite infinda. Era de novo cheia em si. Parte outra do Sol reinante. Claro facho a guiar por entre o breu da incerteza aqueles que não andam por tolo medo de em falso pisar. Fez-se luz na noite. Reflexo claro do poder do dia. Ergam os olhos os que querem ver e abram um sorriso de alívio. Eis que a Mãe de todas as eras os embala no ventre, outra vez.


Marina Costa



sábado, 25 de maio de 2013

Do que se sente só em meio a muitos


Fluxo interminável de palavras, barulho intermitente. Sons de todos os tipos: de um lado risos sem sentido, de outro gritos fingidos. Onomatopeias, as mais diversas. E no centro da cabeça um eco sem fim que propaga o vazio, azio, io. Um átomo de segundo observado no vórtice do mundo frenético. Um pavor que sobe do calcanhar pela espinha como fina fria linha até o topo da mente consciente do pulsar da vida em uníssono descompasso universal. E o segundo de consciência é inspirado com ânsia, tal como o náufrago perdido que de repente tem certeza do afogamento iminente. Faz-se silêncio absoluto, rodeado de bocas que se movem demoníacas. Suspenso o tempo, apneia. Minutos imóveis. Para então, em estrondo, cair do céu outra vez a tormenta de falas, ruídos, desarmônica cantoria. Volta-se a respirar. E vencido perde-se na multidão densa, corpo único e desfigurado composto de milhares de partes sem rosto e inexpressivas.
 
Marina Costa


quarta-feira, 15 de maio de 2013

Útero


Bateu a porta, sentou no chão, levou as mãos à cabeça e soltou um profundo suspiro que foi retrucado pelo miado do pequenino siamês. Sorriu de leve em resposta. Sentia alívio ali dentro. O inferno ficara do lado de fora. Não quis nem mesmo levar o dedo ao interruptor. Deixou-se amolecer no escuro e no silêncio, sentindo contra si o afagar do bichano. Longos minutos de mente vazia em busca da quietude que o movimento desenfreado da vida perturba ao longo do dia. O mais calma possível levantou-se, buscou na geladeira um copo de leite e tomou um longo gole. Limpou o bigode que não podia ver no pano de prato que tateou. Certificou-se da tranca na porta, deixou pelo caminho bolsa, sapatos, cachecol, rg. Pegou por instinto o velho pijama púbere. Entrou na cama pelos pés, enrroscando-se no cobertor com uma sensação infinda de paz. Fechou os olhos, abraçou os joelhos, sentiu o sono, vieram os sonhos, escape confortador. Tempos ensolarados e risadas infantis vinham em sua mente fundindo-se em flutuações vermelhas e quentes, num conforto protegido sem fim. Ali, em sua casa-ventre era ninguém outra vez. Sensação serena e feliz de ao invés de ter o mundo nas costas fazer parte dele. E só.

Marina Costa

sábado, 11 de maio de 2013

Atilha


Sentada no degrau da porta, a garotinha olhava ansiosa os carros passando. Ouvia, atenta, os meninos gritarem enquanto jogavam bola na rua. Sentia nas bochechas rosadas o vento fresco do fim de tarde. E com as mãozinhas sujas, alisava o chão da varanda. Os olhos não saíam do portão. Esperava. Sabia que certa hora, entraria por ali a mulher que a carregaria no colo e faria cosquinhas em sua barriga. Que tinha o bolso cheio de balas e nas mãos um chocolate. Que sorriria ao ouvi-la contar como conseguiu vestir a gravata de seda do papai no cachorro. Ela viria. E ela esperou. Esperou por todos os dias que sobraram de sua infância. E também mais alguns anos de sua adolescência. Agora, já mulher feita, continuava sentada na varanda sem desviar a vista do portão, esperando. Ele finalmente rangiu. Deu-se a correria pelo jardim que culminou em um abraço apertado na loirinha sapeca que lançou ao chão cadernos e boneca. Enlaçou sua mãe pelo pescoço e ria o riso de ontem e de amanhã como se fosse o mais satisfeito da vida toda! Essa era a hora da mãe suprir tudo o que lhe foi tirado quando filha. Passar para aquele pequeno ser todo o amor que guardara no peito e receber de volta todo o aconchego que perdeu sem saber porquê. Nada podia suprir a vontade de manter sempre a filha perto de si. A alegria inenarrável de ouvir a doce criança dizer que nada no mundo era melhor que aquele cheirinho de mãe.

Marina Costa

domingo, 5 de maio de 2013

Além da Lenda


Abre a caixa, debaixo da árvore brilhante e aspira o perfume de surpresa que sai depois que o laço roxo se desfaz. Há uma luz intensa lá dentro e segundos depois de hipnótico olhar, um pequeno ser espia para cima, tão assustado quanto quem o vê. Silêncio no ar suspenso. Ele espirra e solta uma pequena baforada de enxofre. É um filhote ainda. Ela sorri e cai da cama, esbaforida. O sol entra pela janela, devastando tudo com seu calor de bom dia! Algumas roupas emboladas dentro da mochila para ela disparar porta a fora, em busca de seu mágico presente sonhado. Há, no final do arco íris um tesouro pra cada ser, lhe disse uma vez certa mulher velha. Mas muitos acabam tão ocupados a vida inteira que deixam o que quer que seja por lá, completou. Alguns poucos, cheios de ideias, vão buscar. Costumam não voltar. São sonhadores, dizem os vivos mortos, e por lá deveriam ficar. É o que alguns chamam de Eldorado. Onde tudo o que é esplêndido existe. É onde eu gostaria de morar.

Marina Costa

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Sereiano

 
É noite alta, é sono longe e vai-se a cabeça quebrando em busca de ideia para falar de assunto que não me quer. Preencher papel virtual com engodo nunca me apeteceu. Mas parece que de tudo que podia já falei usando o vento, o sol e o céu. E se, de repente, não sobrou mais nada, acabou meu relacionamento luxurioso com as palavras, teria que dormir atormentada pela assustadora constatação de que sobre esse infinito universo estrelado, onde vaga a solta tanta inspiração, eu não tenho mais o que dizer, me esvaiu a emoção! Ainda ontem, fazia um tratado sobre meu constante e infindo reparar e agora eis que me vejo acuada, frente a esta tela branca que não me diz nada, entrando em silencioso desespero pela falta de uma boa tirada. Rodopio em círculos mesmo estando bem sentada. Olho para os lados, vejo duendes amigos e peço uma dose que seja de iludida fantasia. Eles gargalham como fazem sempre que vêem minha aflição. E eu, tonta que sou, quase me deixo levar outra vez pelo conto da fada trolada. Não, não quero amorzinhos ou grande afetação. Chega também de tristeza e lamentação. Não há remédio ou salvação. Devo aceitar que meu coração só trabalha quando quer. E hoje ele está de folga, voltou aos meus dedos as costas e recusa-se a assimilar fogo a paixão. Deixo então, resignada, este confessionário aberto e vou mergulhar nas páginas de um marinheiro inquieto a quem tive a honra de ser acidentalmente apresentada entre as prateleiras da biblioteca. Para que não fique de todo perdida essa vã tentativa de ao ilustrar meu mundo regalar suas vidas, ouçam Conrad, o mais novo passageiro de minhas íntimas viagens: "escrever é apenas uma conversão das minhas forças em frases". É meu caro homem dos mares... faça-me companhia esta noite pois Orfeu definitivamente não me visitará. E eis que me sinto fraca com a pena que tenho nas mãos. Leiamos então.
 
Marina Costa

sábado, 20 de abril de 2013

Poema de quem espera

Sozinho no silêncio ele medita se liga pra ela.
No escuro da cozinha o café preto esfria.
Na sala abandonada o gato carente mia.
E tocado pelo dedo frio da solidão ele mela.

(não, não nasci para poetisa,
se querem saber o fim da história
ele não ligou com medo de um não, morreu sozinho num asilo pobre e
foi enterrado como indigente.
Ela dormiu 83 noites ao lado do telefone
até se desiludir totalmente e canalizar sua revolta para o fervor
da oração, virou madre superiora e escondeu por toda vida
em sua bíblia de cabeceira a foto do único momento que tiveram juntos. Foi enterrada com a tal bíliba e o seguintes dizeres para a eternidade:
" Grande estudiosa das palavras do Senhor. Àquele que crê, Deus proverá.")
 
Moral do poema que não saiu de minha pena: caro ou caríssima, não tema. Com tanta forma de comunicar e tanto sentimento para exprimir o único pecado que pode existir é não falar.
Marina Costa


segunda-feira, 15 de abril de 2013

Habitus



     Bocejar e limpar o nariz com a manga da blusa. A remela do olho sai com um pouquinho de cuspe matinal. O dedo de ontem mistura no leite o café fresco e a escova de dentes ficou a ver navios quando ele escutou a campainha.
     Os degraus de dois em dois poderiam nem estar ali que ele não daria reparo. O trinco da porta, a arrumar, provavelmente criará teias. O bom dia é o mesmo de ontem tal qual o gel no cabelo do carona. Ambos partilham do segredo automático da rotina, aquele mesmo que impede a auto crítica.
     As horas passaram como sempre, o trânsito se engarrafou como todos os dias, a labuta foi amarga como safra nova de merlot argentino. A mente, imersa nas luzes e buzinas divagava em nada. Acostumada.
     O sapato dela já estava jogado na sala, o pijama velho pulou na cama e entrou nele, o chuveiro tal qual galinha no poleiro pôde dormir mais cedo. O corpo buscou a cama, a mão a perna dela, o indicador o on da tv e como um atleta sincronizado dormiu assim que tudo se ajeitou. Ela piscou sonolenta. Se virou, tirou o controle da mão dele, beijou sua testa quente e apagou o abajur. Juntos ressonaram. A cidade não parou. O sol viria em pouco. Morre tudo no silêncio noturno exceto os hábitos. E Ele viu que isso era bom.

Marina Costa


quarta-feira, 10 de abril de 2013

Quando choram os dragões


Sozinha ela via o sol se por. Sentada na pedra alta, enrrolada em si mesma pensava sobre seus conhecidos segredos enquanto pelas escamas sentia entrar o frio da escuridão que mal começara. Seriam tempos difíceis era o que prometia seu silêncio taciturno. Junto com o último raio de luz veio dos céus um trovão mouco e o mar agigantou-se na maior onda que ela já vira desde que aprendera a voar. Maior do que todas as tormentas pelas quais passou quando vivia no ar. Entendeu que finalmente estava na hora e no lugar da resposta para suas perguntas nunca formuladas. Ela queria saber demais, julgavam os Deuses. Pacífica, permaneceu sentada e encolhida. A água equilibrou-se em nada, ganhou volume, tampou o pouco de claridade que restava e por fim desabou, ensurdecedora. Ela abaixou a pequena cabeça e sibilou, como se sussurrasse uma despedida ao vento. Sobre pedras, sobre ideias, sobre si mesma, toneladas de sensações caíram, encharcando suas já muito molhadas asas que cansadas de bater em vão se deixaram levar. Em poucos segundos o refluxo da maré limpou a paisagem de qualquer vestígio de sentimento. Eles agora adormeciam junto a ela, sob o oceano que resplandecia calmo e sereno outro vez.

Marina Costa

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Ela disse um dia


“Viver é um tormento”. Foi seu grito de lamento, dentro de um quarto escuro e fechado, sufocado como o próprio sentimento. Todos se calaram de súbito e a olharam. Lá fora a chuva caía, uma menina pulava em poças d’água e ria, um casal se amava molhados, pássaros voavam e piavam e uma mulher sozinha gentilmente era acolhida por um cavalheiro de guarda chuva. Ainda assim havia no peito dela opressão. Peso. Vontade de exprimir um último suspiro e encontrar de olhos fechados campos mais floridos que abriguem sob um céu mais azul homens mais honestos. Ela era bonita. Ela era amada e chorava. Ela era uma dessas pessoas que deus poupou maldosamente da ignorância do egoísmo e por isso ela sofria. E ninguém além dela entendia. Risos amarelos, troca desconfortável de olhares, verdade para ouvidos que não sabiam ouvir. Então outra vez e mais uma ela se afogou em pensamentos e o barulho da chuva inundou o quarto quieto. Ninguém mais falou. De longe alguém engoliu um choro de compreensão. E a vida, parada à porta de olhos arregalados, deu às costas e saiu, perdeu-se na tormenta.

Marina Costa

segunda-feira, 1 de abril de 2013

De quando o problema é Si mesmo


     O jornaleiro grita, o padeiro de bicicleta buzina, a velha senhora resmunga enquanto varre a rua e o sol brilha.
     O homem tolo sorri, envergonhado da própria tolice revelada. Sorri honestamente, o que afeta a minha presunção. Acho que o problema sou eu.
     Eu que vejo a rotina como a bruxa que oferece a maçã. Ao invés de engolir, como toda boa princesa, eu cuspo e escarro e grito meu malfadado ato de eterno despertar. E eu brigo e xingo e questiono e não admito e agrido e choro e me desculpo e peço um pedaço então.
     E sinto o veneno entrando, estrangulando meu rebelde bom senso, asfixiando minha mente provocada, apertando como camisa de força meus braços pequenos que ficam menores e menos. Sou toda contenção. As lágrimas escorrem para dentro, meus olhos são agora de vidro e brilham. Minha boca se move produzindo um "tudo bem". Sigo os súditos.
Abaixamos as cabeças para que desça com menos dureza a guilhotina do tempo.
 
Marina Costa

domingo, 10 de março de 2013

Dias


Passam, um após o outro, em uma vagarosa imagem de melancolia acorrentada, eternidade cuja visão mostra-se insuportavelmente abissal. Lentos e arrastados andam na direção de um sol que nunca morre e por isso não pode viver. Entremeados a eles vão homens a fenecer, mulheres a perder o viço, crianças e velhos desdentados e sedentos de vida por vir e há muito esvaída. Fechadas nessas humanas figuras sensações diversas formando um obtuso quadro de contrastes, pontas e hastes ante a igualdade infindável e circular dos dias. Serão tais sentimentos reflexos de impressões já sentidas, pergunta-se aquele insano ciente do eterno. Possível seria, tal como surgem sempre novas melodias, em certa epifania de um momento qualquer acontecer ao menos uma emoção nunca sentida, um ódio mais mortal, um desejo incalculável como jamais houvera até então? Apenas a onisciência responderia tal questão e não há sequer razão para crer que ela acompanhe o lento caminhar dos dias. Fecham-se por fim todas as formas de amor e dor no coração daqueles que transitam entre o dormir e o acordar. Só a ti na insustentável leveza de sua vida caberá conhecer o que pôde ser. E seguem, todos estes prisioneiros do tempo, monótonos e repletos rumo ao precipício findo onde são atirados destinos.

Marina Costa

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Serpentinas

 
Créditos da imagem: Alain Boussac - disponível em: http://www.pbase.com/image/109789859
 
Passou a tarde, passou o dia, chegou a noite e ele perdeu o brilho, solitário como a estrela primeira que primeiro o viu ali, só. Ele a buscou, esperou, mas se perdeu nas incertezas do amor de carnaval e, entre o duvidoso e o improvável, optou pela saída mais próxima, antes que seu coração terminasse de se partir. Longe ele ouvia uma voz chorosa cantarolar "Meu amor foi-se embora, não sei onde está, quem não chora?", e antes que caísse a lágrima derradeira, deixou no local marcado um triste chapéu amassado e foi levado pelo espírito do desalento para o bar mais próximo, curar sua desilusão. Uma bailarina, que entrou de sapatilhas na mão, compadeceu-se do pobre palhaço que cantava uma marchinha magoada no balcão. Meu consolo é você, ele repetia antes de cada gole sofrido. Compadecida, ela foi em sua direção mas antes que dissesse algo para lhe acalentar, eis que surgiu seu princípe encantado e eles se perderam, risonhos, multidão adentro.

 Marina Costa


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Confetes

 
Enquanto a colombina, triste menina, olhava a lua com lágrimas a se formar nos olhos vazios de folia, um pequenino confete veio tremulando e caiu sobre seu lábio ressecado. Delicadamente com o indicador, retirou o pedaço de papel, que atrevido, pousou onde os lábios de seu pierrot não puderam encostar. Ao arremessar tal ousado folião na sarjeta, prendeu sua atenção um engraçado ornamento que ali também jazia, solitário e amassado, como o coração da colombina. Então ele havia aparecido ao encontro! Por outro momento, se perderam. Entristeceu-se mais com essa piada do destino, mesmo sabendo ser o carnaval tempo propício para brincadeiras tais. Exausta, sentou-se desolada no meio fio. Alguns carnavalescos tardios ainda tentavam animá-la com alcoólicos elogios e exageradas reverências. Enquanto ela, ainda na fantasia que próxima estava de abandonar, sorria constrangida e pensava, em meio a suspiros: quem sabe no próximo carnaval...
 
Marina Costa

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Polissíndeto

 
Acordei e lavei o rosto com muita água fria e tomei café requentado e despedi do gato sem emoção. E então caiu sobre meu dia uma chuva escura de preocupações maciças. Contas em atraso e amor machucado e unha encravada e vontade de pedir demissão. Final de tarde e eu continuava com cabeça quente e minha cara amarrada e vontade de pedir carona em boléia de caminhão. Ainda era horário de verão. E uma velhinha atravessava a rua rindo sozinha. E uma garotinha fazia sinal para um carro parar antes da faixa. E ao longe escutei o abrir de uma garrafa antecedendo o brinde. E o sol saiu para terminar o dia aquecendo meu coração. Hora de dormir, depois do livro e do eu te amo. E ajeitei o travesseiro, e beijei o gato e fechei os olhos e vieram um monte de sonhos. Eu perdida em um labirinto de fumaça. E eu sorria da minha confusão que com certeza parecia maior do que realmente é.

Marina Costa

domingo, 20 de janeiro de 2013

Pleonasmos


Quando sai não imaginava que iria tão para fora da vida que levava, tão sem graça e tão comum. Acordei um dia, bem desperta, e me vi as voltas com a observação simplista de que nada tinha, nada queria, nada mais poderia almejar que fizesse ao menos uma oscilação leve em meu espírito acomodado. Pois se não mais tenho desejos, se minha vontade falha, o que farei com os anos que ainda me restam viver? Pensei, entre baforadas de cigarro e goles quentes de café. E eis que decido, determinada, resolvida, a reunir um ou dois livros, fumo do cachimbo e me por na estrada, que se desenrolaria mais repleta tendo em vista que... eu já não buscava mais ver. O caminho não era o esperado porque já não haviam em mim ilusões criadas. Por isso, pude enxergar que a minha grama era tão verde quanto a do vizinho e que o amarelado do sol nascente era tão dourado em mim quanto no cão que lambia o dorso. Compreendi que a criança entertida com o brinquedo quebrado era tão atenciosa em sua função quanto o economista a emitir relatórios de uma possível crise nacional. A atenção do mundo dependia do entorno em que essa atenção era necessária. Apenas isso. Andei, um pé na frente do outro infinitas vezes, pulando sarjetas algumas delas, me agachando para apreciar uma pequena joaninha em outras. Sem um fim para a busca, me acomodei em uma gruta que ficava tão longe de minha origem quanto eu poderia pensar, se pensasse. Mas decidi que não mais precisava. Sentei-me aqui. E dentro dessa caverna escura, sem mais memórias do que o tempo, eu me permito aprisionar no corpo o espírito, domar os cavalos selvagens da mente e contemplar a vida sem personas enquanto ela, faceira e de olhos muito abertos, passa a eternidade infinita contemplando a mim.
 
Marina Costa