sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Polissíndeto

 
Acordei e lavei o rosto com muita água fria e tomei café requentado e despedi do gato sem emoção. E então caiu sobre meu dia uma chuva escura de preocupações maciças. Contas em atraso e amor machucado e unha encravada e vontade de pedir demissão. Final de tarde e eu continuava com cabeça quente e minha cara amarrada e vontade de pedir carona em boléia de caminhão. Ainda era horário de verão. E uma velhinha atravessava a rua rindo sozinha. E uma garotinha fazia sinal para um carro parar antes da faixa. E ao longe escutei o abrir de uma garrafa antecedendo o brinde. E o sol saiu para terminar o dia aquecendo meu coração. Hora de dormir, depois do livro e do eu te amo. E ajeitei o travesseiro, e beijei o gato e fechei os olhos e vieram um monte de sonhos. Eu perdida em um labirinto de fumaça. E eu sorria da minha confusão que com certeza parecia maior do que realmente é.

Marina Costa

domingo, 20 de janeiro de 2013

Pleonasmos


Quando sai não imaginava que iria tão para fora da vida que levava, tão sem graça e tão comum. Acordei um dia, bem desperta, e me vi as voltas com a observação simplista de que nada tinha, nada queria, nada mais poderia almejar que fizesse ao menos uma oscilação leve em meu espírito acomodado. Pois se não mais tenho desejos, se minha vontade falha, o que farei com os anos que ainda me restam viver? Pensei, entre baforadas de cigarro e goles quentes de café. E eis que decido, determinada, resolvida, a reunir um ou dois livros, fumo do cachimbo e me por na estrada, que se desenrolaria mais repleta tendo em vista que... eu já não buscava mais ver. O caminho não era o esperado porque já não haviam em mim ilusões criadas. Por isso, pude enxergar que a minha grama era tão verde quanto a do vizinho e que o amarelado do sol nascente era tão dourado em mim quanto no cão que lambia o dorso. Compreendi que a criança entertida com o brinquedo quebrado era tão atenciosa em sua função quanto o economista a emitir relatórios de uma possível crise nacional. A atenção do mundo dependia do entorno em que essa atenção era necessária. Apenas isso. Andei, um pé na frente do outro infinitas vezes, pulando sarjetas algumas delas, me agachando para apreciar uma pequena joaninha em outras. Sem um fim para a busca, me acomodei em uma gruta que ficava tão longe de minha origem quanto eu poderia pensar, se pensasse. Mas decidi que não mais precisava. Sentei-me aqui. E dentro dessa caverna escura, sem mais memórias do que o tempo, eu me permito aprisionar no corpo o espírito, domar os cavalos selvagens da mente e contemplar a vida sem personas enquanto ela, faceira e de olhos muito abertos, passa a eternidade infinita contemplando a mim.
 
Marina Costa

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Hipérbole


Até o fim do mundo, com cães nos calcanhares e fogo pelos ares ele iria atrás do amor dela. Nadando através dos frios mares, correndo pelas florestas escuras, enfrentando toda sorte de desastres, ele perseguiria com ardor o restante precioso do pouco que provou. Gelo, neve, tempestades. Nenhuma fúria divina seria capaz de detê-lo em sua odisséia pela Helena de seus sonhos, amada Dulcinéia, terna e casta Cleopátra cigana. Fechada a porta atrás de si, armas em punho para a busca, ele põe o pé direito rua a fora. O sinal estava vermelho. Foi quando viu, pelo canto do olho desatento, uma bela cabeleira loira se agitar com o vento. E de repente a aventura de um amor indefinível ficou esquecida na sarjeta da calçada enquanto os passos incertos dele seguiam um aroma provocantemente desconhecido. O amor é, por vezes, só uma história exagerada. 

Marina Costa

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Elipses




Para Aristóteles, a natureza nos dotou da capacidade de falar para viver em sociedade. A natureza nos fez sociáveis. Quando um homem estupra uma mulher, quando uma esposa ensandecida corta o falo de seu marido infiel, quando uma mãe mata seu filho a pauladas, talvez sejam somente as tais falhas de comunicação, mal que a todos afeta. Em geral, a maioria acorda dizendo bom dia, eu te amo, senti saudades de você. Da cozinha vem os gritos de tô com fome, acabou o leite, não fui eu que quebrei. Pelo telefone promessas de não me demoro, aqui está tudo bem, nosso pai faleceu. E ao fim do dia quando a noite cobre o mundo com escuridão e todos dormem anestesiados pela vida, aquele inquieto, que não pode pregar os olhos, sente-se mal por algo que disse ou pelo que deixou de dizer. De um modo ou de outro, ela partiu. A impotência do silêncio provoca lágrimas desesperadas, autocomiseração. Aristóteles deve estar errado. Ou a sábia Mãe Natureza deve ter esquecido de nos dotar com algo inominável que deveria ser capaz de nos fazer cientes do inexprimível.

Marina Costa