quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Elipses




Para Aristóteles, a natureza nos dotou da capacidade de falar para viver em sociedade. A natureza nos fez sociáveis. Quando um homem estupra uma mulher, quando uma esposa ensandecida corta o falo de seu marido infiel, quando uma mãe mata seu filho a pauladas, talvez sejam somente as tais falhas de comunicação, mal que a todos afeta. Em geral, a maioria acorda dizendo bom dia, eu te amo, senti saudades de você. Da cozinha vem os gritos de tô com fome, acabou o leite, não fui eu que quebrei. Pelo telefone promessas de não me demoro, aqui está tudo bem, nosso pai faleceu. E ao fim do dia quando a noite cobre o mundo com escuridão e todos dormem anestesiados pela vida, aquele inquieto, que não pode pregar os olhos, sente-se mal por algo que disse ou pelo que deixou de dizer. De um modo ou de outro, ela partiu. A impotência do silêncio provoca lágrimas desesperadas, autocomiseração. Aristóteles deve estar errado. Ou a sábia Mãe Natureza deve ter esquecido de nos dotar com algo inominável que deveria ser capaz de nos fazer cientes do inexprimível.

Marina Costa

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