domingo, 20 de janeiro de 2013

Pleonasmos


Quando sai não imaginava que iria tão para fora da vida que levava, tão sem graça e tão comum. Acordei um dia, bem desperta, e me vi as voltas com a observação simplista de que nada tinha, nada queria, nada mais poderia almejar que fizesse ao menos uma oscilação leve em meu espírito acomodado. Pois se não mais tenho desejos, se minha vontade falha, o que farei com os anos que ainda me restam viver? Pensei, entre baforadas de cigarro e goles quentes de café. E eis que decido, determinada, resolvida, a reunir um ou dois livros, fumo do cachimbo e me por na estrada, que se desenrolaria mais repleta tendo em vista que... eu já não buscava mais ver. O caminho não era o esperado porque já não haviam em mim ilusões criadas. Por isso, pude enxergar que a minha grama era tão verde quanto a do vizinho e que o amarelado do sol nascente era tão dourado em mim quanto no cão que lambia o dorso. Compreendi que a criança entertida com o brinquedo quebrado era tão atenciosa em sua função quanto o economista a emitir relatórios de uma possível crise nacional. A atenção do mundo dependia do entorno em que essa atenção era necessária. Apenas isso. Andei, um pé na frente do outro infinitas vezes, pulando sarjetas algumas delas, me agachando para apreciar uma pequena joaninha em outras. Sem um fim para a busca, me acomodei em uma gruta que ficava tão longe de minha origem quanto eu poderia pensar, se pensasse. Mas decidi que não mais precisava. Sentei-me aqui. E dentro dessa caverna escura, sem mais memórias do que o tempo, eu me permito aprisionar no corpo o espírito, domar os cavalos selvagens da mente e contemplar a vida sem personas enquanto ela, faceira e de olhos muito abertos, passa a eternidade infinita contemplando a mim.
 
Marina Costa

2 comentários:

  1. Geórgia Araújo Chaves25 de janeiro de 2013 02:50

    Marininha, lindo viu! Bjus!

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  2. Geo, bom saber que está por aqui! Beijos!

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