domingo, 10 de março de 2013

Dias


Passam, um após o outro, em uma vagarosa imagem de melancolia acorrentada, eternidade cuja visão mostra-se insuportavelmente abissal. Lentos e arrastados andam na direção de um sol que nunca morre e por isso não pode viver. Entremeados a eles vão homens a fenecer, mulheres a perder o viço, crianças e velhos desdentados e sedentos de vida por vir e há muito esvaída. Fechadas nessas humanas figuras sensações diversas formando um obtuso quadro de contrastes, pontas e hastes ante a igualdade infindável e circular dos dias. Serão tais sentimentos reflexos de impressões já sentidas, pergunta-se aquele insano ciente do eterno. Possível seria, tal como surgem sempre novas melodias, em certa epifania de um momento qualquer acontecer ao menos uma emoção nunca sentida, um ódio mais mortal, um desejo incalculável como jamais houvera até então? Apenas a onisciência responderia tal questão e não há sequer razão para crer que ela acompanhe o lento caminhar dos dias. Fecham-se por fim todas as formas de amor e dor no coração daqueles que transitam entre o dormir e o acordar. Só a ti na insustentável leveza de sua vida caberá conhecer o que pôde ser. E seguem, todos estes prisioneiros do tempo, monótonos e repletos rumo ao precipício findo onde são atirados destinos.

Marina Costa

Um comentário:

  1. Falta um Eros aí nesse seu Tânatos. Mas então, ler seu texto e me dar conta disso me deixou mais otimista, quem diria!

    Abraços


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