sexta-feira, 5 de abril de 2013

Ela disse um dia


“Viver é um tormento”. Foi seu grito de lamento, dentro de um quarto escuro e fechado, sufocado como o próprio sentimento. Todos se calaram de súbito e a olharam. Lá fora a chuva caía, uma menina pulava em poças d’água e ria, um casal se amava molhados, pássaros voavam e piavam e uma mulher sozinha gentilmente era acolhida por um cavalheiro de guarda chuva. Ainda assim havia no peito dela opressão. Peso. Vontade de exprimir um último suspiro e encontrar de olhos fechados campos mais floridos que abriguem sob um céu mais azul homens mais honestos. Ela era bonita. Ela era amada e chorava. Ela era uma dessas pessoas que deus poupou maldosamente da ignorância do egoísmo e por isso ela sofria. E ninguém além dela entendia. Risos amarelos, troca desconfortável de olhares, verdade para ouvidos que não sabiam ouvir. Então outra vez e mais uma ela se afogou em pensamentos e o barulho da chuva inundou o quarto quieto. Ninguém mais falou. De longe alguém engoliu um choro de compreensão. E a vida, parada à porta de olhos arregalados, deu às costas e saiu, perdeu-se na tormenta.

Marina Costa

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