segunda-feira, 15 de abril de 2013

Habitus



     Bocejar e limpar o nariz com a manga da blusa. A remela do olho sai com um pouquinho de cuspe matinal. O dedo de ontem mistura no leite o café fresco e a escova de dentes ficou a ver navios quando ele escutou a campainha.
     Os degraus de dois em dois poderiam nem estar ali que ele não daria reparo. O trinco da porta, a arrumar, provavelmente criará teias. O bom dia é o mesmo de ontem tal qual o gel no cabelo do carona. Ambos partilham do segredo automático da rotina, aquele mesmo que impede a auto crítica.
     As horas passaram como sempre, o trânsito se engarrafou como todos os dias, a labuta foi amarga como safra nova de merlot argentino. A mente, imersa nas luzes e buzinas divagava em nada. Acostumada.
     O sapato dela já estava jogado na sala, o pijama velho pulou na cama e entrou nele, o chuveiro tal qual galinha no poleiro pôde dormir mais cedo. O corpo buscou a cama, a mão a perna dela, o indicador o on da tv e como um atleta sincronizado dormiu assim que tudo se ajeitou. Ela piscou sonolenta. Se virou, tirou o controle da mão dele, beijou sua testa quente e apagou o abajur. Juntos ressonaram. A cidade não parou. O sol viria em pouco. Morre tudo no silêncio noturno exceto os hábitos. E Ele viu que isso era bom.

Marina Costa


3 comentários:

  1. Se a rotina tem um segredo automático, está bem guardado, porque eu não sei qual é. Talvez seja por isso que minha auto-crítica é uma porcaria.

    Abraços



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  2. Incrível. Simplesmente incrível. O modo como explicita sua reflexão é fantástica.

    =)

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  3. Acho que é um segredo meio que conhecido mas daqueles inconscientes sabe... também não entendo bem. Só sei que no final, aceitamos...
    Obrigada Alexandre! Que bom que consigo me explicar pelo menos na escrita, rs! Abraços pessoal!

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