quarta-feira, 24 de abril de 2013

Sereiano

 
É noite alta, é sono longe e vai-se a cabeça quebrando em busca de ideia para falar de assunto que não me quer. Preencher papel virtual com engodo nunca me apeteceu. Mas parece que de tudo que podia já falei usando o vento, o sol e o céu. E se, de repente, não sobrou mais nada, acabou meu relacionamento luxurioso com as palavras, teria que dormir atormentada pela assustadora constatação de que sobre esse infinito universo estrelado, onde vaga a solta tanta inspiração, eu não tenho mais o que dizer, me esvaiu a emoção! Ainda ontem, fazia um tratado sobre meu constante e infindo reparar e agora eis que me vejo acuada, frente a esta tela branca que não me diz nada, entrando em silencioso desespero pela falta de uma boa tirada. Rodopio em círculos mesmo estando bem sentada. Olho para os lados, vejo duendes amigos e peço uma dose que seja de iludida fantasia. Eles gargalham como fazem sempre que vêem minha aflição. E eu, tonta que sou, quase me deixo levar outra vez pelo conto da fada trolada. Não, não quero amorzinhos ou grande afetação. Chega também de tristeza e lamentação. Não há remédio ou salvação. Devo aceitar que meu coração só trabalha quando quer. E hoje ele está de folga, voltou aos meus dedos as costas e recusa-se a assimilar fogo a paixão. Deixo então, resignada, este confessionário aberto e vou mergulhar nas páginas de um marinheiro inquieto a quem tive a honra de ser acidentalmente apresentada entre as prateleiras da biblioteca. Para que não fique de todo perdida essa vã tentativa de ao ilustrar meu mundo regalar suas vidas, ouçam Conrad, o mais novo passageiro de minhas íntimas viagens: "escrever é apenas uma conversão das minhas forças em frases". É meu caro homem dos mares... faça-me companhia esta noite pois Orfeu definitivamente não me visitará. E eis que me sinto fraca com a pena que tenho nas mãos. Leiamos então.
 
Marina Costa

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