sábado, 25 de maio de 2013

Do que se sente só em meio a muitos


Fluxo interminável de palavras, barulho intermitente. Sons de todos os tipos: de um lado risos sem sentido, de outro gritos fingidos. Onomatopeias, as mais diversas. E no centro da cabeça um eco sem fim que propaga o vazio, azio, io. Um átomo de segundo observado no vórtice do mundo frenético. Um pavor que sobe do calcanhar pela espinha como fina fria linha até o topo da mente consciente do pulsar da vida em uníssono descompasso universal. E o segundo de consciência é inspirado com ânsia, tal como o náufrago perdido que de repente tem certeza do afogamento iminente. Faz-se silêncio absoluto, rodeado de bocas que se movem demoníacas. Suspenso o tempo, apneia. Minutos imóveis. Para então, em estrondo, cair do céu outra vez a tormenta de falas, ruídos, desarmônica cantoria. Volta-se a respirar. E vencido perde-se na multidão densa, corpo único e desfigurado composto de milhares de partes sem rosto e inexpressivas.
 
Marina Costa


quarta-feira, 15 de maio de 2013

Útero


Bateu a porta, sentou no chão, levou as mãos à cabeça e soltou um profundo suspiro que foi retrucado pelo miado do pequenino siamês. Sorriu de leve em resposta. Sentia alívio ali dentro. O inferno ficara do lado de fora. Não quis nem mesmo levar o dedo ao interruptor. Deixou-se amolecer no escuro e no silêncio, sentindo contra si o afagar do bichano. Longos minutos de mente vazia em busca da quietude que o movimento desenfreado da vida perturba ao longo do dia. O mais calma possível levantou-se, buscou na geladeira um copo de leite e tomou um longo gole. Limpou o bigode que não podia ver no pano de prato que tateou. Certificou-se da tranca na porta, deixou pelo caminho bolsa, sapatos, cachecol, rg. Pegou por instinto o velho pijama púbere. Entrou na cama pelos pés, enrroscando-se no cobertor com uma sensação infinda de paz. Fechou os olhos, abraçou os joelhos, sentiu o sono, vieram os sonhos, escape confortador. Tempos ensolarados e risadas infantis vinham em sua mente fundindo-se em flutuações vermelhas e quentes, num conforto protegido sem fim. Ali, em sua casa-ventre era ninguém outra vez. Sensação serena e feliz de ao invés de ter o mundo nas costas fazer parte dele. E só.

Marina Costa

sábado, 11 de maio de 2013

Atilha


Sentada no degrau da porta, a garotinha olhava ansiosa os carros passando. Ouvia, atenta, os meninos gritarem enquanto jogavam bola na rua. Sentia nas bochechas rosadas o vento fresco do fim de tarde. E com as mãozinhas sujas, alisava o chão da varanda. Os olhos não saíam do portão. Esperava. Sabia que certa hora, entraria por ali a mulher que a carregaria no colo e faria cosquinhas em sua barriga. Que tinha o bolso cheio de balas e nas mãos um chocolate. Que sorriria ao ouvi-la contar como conseguiu vestir a gravata de seda do papai no cachorro. Ela viria. E ela esperou. Esperou por todos os dias que sobraram de sua infância. E também mais alguns anos de sua adolescência. Agora, já mulher feita, continuava sentada na varanda sem desviar a vista do portão, esperando. Ele finalmente rangiu. Deu-se a correria pelo jardim que culminou em um abraço apertado na loirinha sapeca que lançou ao chão cadernos e boneca. Enlaçou sua mãe pelo pescoço e ria o riso de ontem e de amanhã como se fosse o mais satisfeito da vida toda! Essa era a hora da mãe suprir tudo o que lhe foi tirado quando filha. Passar para aquele pequeno ser todo o amor que guardara no peito e receber de volta todo o aconchego que perdeu sem saber porquê. Nada podia suprir a vontade de manter sempre a filha perto de si. A alegria inenarrável de ouvir a doce criança dizer que nada no mundo era melhor que aquele cheirinho de mãe.

Marina Costa

domingo, 5 de maio de 2013

Além da Lenda


Abre a caixa, debaixo da árvore brilhante e aspira o perfume de surpresa que sai depois que o laço roxo se desfaz. Há uma luz intensa lá dentro e segundos depois de hipnótico olhar, um pequeno ser espia para cima, tão assustado quanto quem o vê. Silêncio no ar suspenso. Ele espirra e solta uma pequena baforada de enxofre. É um filhote ainda. Ela sorri e cai da cama, esbaforida. O sol entra pela janela, devastando tudo com seu calor de bom dia! Algumas roupas emboladas dentro da mochila para ela disparar porta a fora, em busca de seu mágico presente sonhado. Há, no final do arco íris um tesouro pra cada ser, lhe disse uma vez certa mulher velha. Mas muitos acabam tão ocupados a vida inteira que deixam o que quer que seja por lá, completou. Alguns poucos, cheios de ideias, vão buscar. Costumam não voltar. São sonhadores, dizem os vivos mortos, e por lá deveriam ficar. É o que alguns chamam de Eldorado. Onde tudo o que é esplêndido existe. É onde eu gostaria de morar.

Marina Costa