sábado, 11 de maio de 2013

Atilha


Sentada no degrau da porta, a garotinha olhava ansiosa os carros passando. Ouvia, atenta, os meninos gritarem enquanto jogavam bola na rua. Sentia nas bochechas rosadas o vento fresco do fim de tarde. E com as mãozinhas sujas, alisava o chão da varanda. Os olhos não saíam do portão. Esperava. Sabia que certa hora, entraria por ali a mulher que a carregaria no colo e faria cosquinhas em sua barriga. Que tinha o bolso cheio de balas e nas mãos um chocolate. Que sorriria ao ouvi-la contar como conseguiu vestir a gravata de seda do papai no cachorro. Ela viria. E ela esperou. Esperou por todos os dias que sobraram de sua infância. E também mais alguns anos de sua adolescência. Agora, já mulher feita, continuava sentada na varanda sem desviar a vista do portão, esperando. Ele finalmente rangiu. Deu-se a correria pelo jardim que culminou em um abraço apertado na loirinha sapeca que lançou ao chão cadernos e boneca. Enlaçou sua mãe pelo pescoço e ria o riso de ontem e de amanhã como se fosse o mais satisfeito da vida toda! Essa era a hora da mãe suprir tudo o que lhe foi tirado quando filha. Passar para aquele pequeno ser todo o amor que guardara no peito e receber de volta todo o aconchego que perdeu sem saber porquê. Nada podia suprir a vontade de manter sempre a filha perto de si. A alegria inenarrável de ouvir a doce criança dizer que nada no mundo era melhor que aquele cheirinho de mãe.

Marina Costa

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para contato, nosso email é vidanacronica@gmail.com