quarta-feira, 15 de maio de 2013

Útero


Bateu a porta, sentou no chão, levou as mãos à cabeça e soltou um profundo suspiro que foi retrucado pelo miado do pequenino siamês. Sorriu de leve em resposta. Sentia alívio ali dentro. O inferno ficara do lado de fora. Não quis nem mesmo levar o dedo ao interruptor. Deixou-se amolecer no escuro e no silêncio, sentindo contra si o afagar do bichano. Longos minutos de mente vazia em busca da quietude que o movimento desenfreado da vida perturba ao longo do dia. O mais calma possível levantou-se, buscou na geladeira um copo de leite e tomou um longo gole. Limpou o bigode que não podia ver no pano de prato que tateou. Certificou-se da tranca na porta, deixou pelo caminho bolsa, sapatos, cachecol, rg. Pegou por instinto o velho pijama púbere. Entrou na cama pelos pés, enrroscando-se no cobertor com uma sensação infinda de paz. Fechou os olhos, abraçou os joelhos, sentiu o sono, vieram os sonhos, escape confortador. Tempos ensolarados e risadas infantis vinham em sua mente fundindo-se em flutuações vermelhas e quentes, num conforto protegido sem fim. Ali, em sua casa-ventre era ninguém outra vez. Sensação serena e feliz de ao invés de ter o mundo nas costas fazer parte dele. E só.

Marina Costa

2 comentários:

  1. Nascemos e morremos todos os dias num manhã-noite entediante e à beira do sem-fim. Mas os sonhos — ah, os sonhos — nos conduzem à erraticidade reconfortante antes de (re)encarnar as roupas de ontem, que nem estão tão sujas assim e que ninguém vai reparar se repetir.

    Já falei que eu adoro o jeito como escreve? :D

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  2. Encarnar as roupas... é uma metáfora bem interessante! Não sei o que anda mais difícil, caro Alexandre... nascer ou morrer todos os dias! Obrigada pela presença constante!

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