domingo, 30 de junho de 2013

Florescer



Tem aqueles que plantam sem vontade, regam por obrigação e quando não obtém um caule forte abandonam o terreno sem pensar. Nômades de coração. Alguns dão tanto amor, tanta atenção que esquecem de cuidar de si e não enxergam o resultado por culpa de estranha auto inanição. Há outros que semeiam tanto e sem querer, a torto e a direito, que terminam perdidos e cegos em seu próprio labirinto florido. E certos pobres, descrentes de seus talentos, conjuram contra qualquer forma de plantação. 

o equilíbrio, como tudo na vida, vem de três formas de levar: saber o que plantar, cultivar com alegria e regar com amor transbordante. Os frutos desse plantio não são outros que não doces e belos. Apetitosos e prósperos. Tal é sua graça que naqueles que passam não despertam luxúria ou inveja. Geram vontade de permanecer, bem querer enternecido. Da fidelidade do jardineiro vem o aroma que perfuma a vida. É assim que lagartas e borboletas (percevejos, formigas, joaninhas e rolinhas) vêm todos juntos e unidos, festejar num mesmo jardim.

Marina Costa

terça-feira, 25 de junho de 2013

Intempéries


Como falam! Como clamam, como apontam, como criticam. São muitas cabeças, muitas ideias, muitas vozes e opiniões. Uma infinidade infinda de direções. Quem seguir? A si? Ao outro que também não sabe bem para onde ir? Há uma fome, uma fúria, um vazio que tal qual o universo não se sabe como será preenchido. Há milhões de letras sendo escritas, lidas, reeditadas, compartilhadas e repartidas. Existe uma coragem que de forma honrosa encobre o medo do final do túnel. Esperança, teremos? Um herói, precisamos? Quem sabe uma força vinda da estratosfera com flores frescas e novos frutos de sabedoria. Vai-se o momento de meditar. É necessário pegar a bandeira e continuar. Até o precipício. Nossos ossos, ao futuro, hão de dizer do que fomos feitos. E o silêncio que se fará, solução ou não, será o retrato claro de que a paz só pode vir dos gritos.

Marina Costa

sábado, 15 de junho de 2013

Epistemologia de Cadarços


Eu reparo o mundo. Meio que descaradamente mas não por sem vergonhice, deixo claro. Reparo por certo interesse antropológico, penso, algo externo e incontrolável ao meu tímido bom senso. Gosto de estar sozinha em lugares públicos cotidianos e observar atentamente; uma espécie de perversão reprimida sem motivos. Restaurantes, cafés, lojas de departamento, ônibus, livrarias... Me ponho a analisar, sempre oculta pelo disfarce dos fones de ouvidos, as personagens que  aparecem nas mais diversas cenas. Velhinhas, homens idosos, casais homos e heteros. Crianças atentas e pais perdidos. Adolescentes desavisados e desinibidos. Cães sarnentos. Gordos pombos. Reparo em toda e qualquer espécie de trejeitos. Modos afetados ou contidos de falar. De agir sob influência ou emoção. De atuar inconsciente. Olho muito. Mesmo. E sempre me surpreende quando se dá aquele momento em que, por espécie de enigmática hipnose, me olham de volta, conscientes do indizível. Julgo tal ato fantástico exemplo de nosso sexto sentido. A capacidade extra sensorial do reparado reparar o reparador no exato instante da reparação. Nesse momento de constrangimento, quando me sinto questionada pelo silencioso o que você está olhando, me envergonho da minha obstinada curiosidade atrevida. Desvio os olhos. E é quando se ilumina outro ponto de minha observação. Saltos, bicos finos e largos. Chinelos velhos, sapatilhas folgadas e encardidos cadarços. Vejo a simpatia, a apatia, a revolta que o rosto esconde ou estampa afirmada ou camuflada. Compartilho ou repudio sentimentos. É no extremo final do corpo que concluo meu estudo do objeto e posso me voltar tranquila para o resto do mundo outra vez. Seguir o dia olhando outras vidas.

Marina Costa

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Sobre estar só


 As vezes a gente fica sozinho quando o resto do mundo esvazia. As vezes vai-se aquela companhia tão desejada porque um vento enfurecido resolveu esparramar bagunça no coração. Depois de passado o furacão, sem muito mais o que fazer, é costume triste a gente sentar sobre tudo e contemplar os destroços. Para todo lado, páginas arrancadas e vidros quebrados, pedaços caídos perto de caixas vazias. Os olhos queriam encher-se de água ante essa visão. Mas a alma está seca e limpa. Resignada. Lutar contra a força que muda a vida é tão inútil quanto lutar contra a certeza que traz a morte. O que fazemos então é levantar e bater a poeira da roupa. Respirar fundo e arregaçar as mangas. O trabalho é dolorido porque cada parte quebrada é repleta de lembranças. 
Mas lá longe, do outro lado das paredes dessa casa emoção que fica no peito, uma réstia de sol pretende brilhar em algum tempo. O sorriso tímido já pode pensar em armar-se de novo para uma próxima cena. Vamos juntando os cacos.

Marina Costa
(18.10.2010)

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Lua Nova



Sobre o céu escuro e tempestuoso subiu uma nesga prateada, fraca e pouca como falso brilhante. Ergueu-se tímida e aportou-se recolhida num canto longe qualquer do cosmos. Paciente, hábito aprendido com a eternidade, contou mais uma vez os dias e a cada minuto de escuro silêncio encheu-se de um pouco mais de luz. Ao final do período de trevas devidas, ela era o disco redondo, reflexo soberano de águas no céu, diamante bruto da noite infinda. Era de novo cheia em si. Parte outra do Sol reinante. Claro facho a guiar por entre o breu da incerteza aqueles que não andam por tolo medo de em falso pisar. Fez-se luz na noite. Reflexo claro do poder do dia. Ergam os olhos os que querem ver e abram um sorriso de alívio. Eis que a Mãe de todas as eras os embala no ventre, outra vez.


Marina Costa