sábado, 15 de junho de 2013

Epistemologia de Cadarços


Eu reparo o mundo. Meio que descaradamente mas não por sem vergonhice, deixo claro. Reparo por certo interesse antropológico, penso, algo externo e incontrolável ao meu tímido bom senso. Gosto de estar sozinha em lugares públicos cotidianos e observar atentamente; uma espécie de perversão reprimida sem motivos. Restaurantes, cafés, lojas de departamento, ônibus, livrarias... Me ponho a analisar, sempre oculta pelo disfarce dos fones de ouvidos, as personagens que  aparecem nas mais diversas cenas. Velhinhas, homens idosos, casais homos e heteros. Crianças atentas e pais perdidos. Adolescentes desavisados e desinibidos. Cães sarnentos. Gordos pombos. Reparo em toda e qualquer espécie de trejeitos. Modos afetados ou contidos de falar. De agir sob influência ou emoção. De atuar inconsciente. Olho muito. Mesmo. E sempre me surpreende quando se dá aquele momento em que, por espécie de enigmática hipnose, me olham de volta, conscientes do indizível. Julgo tal ato fantástico exemplo de nosso sexto sentido. A capacidade extra sensorial do reparado reparar o reparador no exato instante da reparação. Nesse momento de constrangimento, quando me sinto questionada pelo silencioso o que você está olhando, me envergonho da minha obstinada curiosidade atrevida. Desvio os olhos. E é quando se ilumina outro ponto de minha observação. Saltos, bicos finos e largos. Chinelos velhos, sapatilhas folgadas e encardidos cadarços. Vejo a simpatia, a apatia, a revolta que o rosto esconde ou estampa afirmada ou camuflada. Compartilho ou repudio sentimentos. É no extremo final do corpo que concluo meu estudo do objeto e posso me voltar tranquila para o resto do mundo outra vez. Seguir o dia olhando outras vidas.

Marina Costa

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