terça-feira, 30 de julho de 2013

Titubeando


O fogo crepita vermelho e vivo no fogão enquanto ela percebe, de soslaio, a neblina fria erguida no jardim. Concentra-se em vão na massa que tem nas mãos, a cabeça vai longe e solta naquelas chamas dançantes. Parece ver coisas entre as labaredas. O frio que sobe do chão de pedra não é sentido tal a força da visão. Grilhões que se rompem. Muros caindo. Gritos de luta. De ver, passa a ouvir o clamor dos que querem fugir. O pão cresce na gamela, o ar gelado se dissipa e um bater de portas a desperta desse mundo longínquo de gente livre. Cai o suor do rosto molhando o calo dos dedos. Há, assim mesmo, um belo sorriso. Não diminui o martírio. Mas alivia a ansiedade da espera.

Marina Costa

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Alocuçao


Bondade. Substantivo bonachão e querido, que sorri sincero ao ouvir seu nome. Por mais duro o semblante de quem diz, vem a necessidade de sorrir quando a boca forma tais fonemas. Repita com calma: BON DA DE! E a palavra sai como bolha de sabão, leve e solta, encostando macia daqui e dali até que por fim estoura em um espinho mais afiado, que antes servia de acento ao rancor. Os respingos da bondade borrifam o ar com uma névoa branca, brilhante, multicor. E o peito, antes oprimido pelo negrume de um pensamento intruso e malcriado se alivia na bem querença dessa palavrinhha tão caridosa.

Marina Costa

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Ao Ir


Ah, porque só quando você vai, vira as costas e bate a porta, eu caio em mim que amo você. Volta, abre um sorriso, abre os braços, fica aqui comigo enquanto eu passo roupa, lavo prato. Como um bibelô frágil, olhando de soslaio. Não fala nada, tenta respirar brando, só preciso te sentir ali, a olhar o tempo passar, a fazer parte do meu mundo que é tão aqui dentro. Fica hoje. Não leva embora minha inspiração. Porque so quando você vira as costas e vai embora, só quando ouço o trinco ranger, é que dói meu peito desse jeito feio e desabam meus sonhos de fumaça colorida. Só quando você vai.

Marina Costa

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Equadorismos

 
São tantas as formas virtuais de vida que me sinto meio que morta e afogada no anacronismo de minha ânsia de contato. Sinto falta de abraços. Anseio por brindes e sorrisos. Sinto falta, por vezes, do tapinha nas costas que tanto abomino. Spam estraga meu dia. Minhas amigas, que tenho em tão alta conta, acham que me animam com uma mensagem truncada da Lispector, que circula na internet. A tela é fria. E o túmulo de Clarice, revirado por sua revolta a falta de direitos autorais. Que não sejam direitos. Mas que sejam leais. Saio do trabalho ao léu, minguada e sozinha como a lua lá em cima. Todos on line. Ninguém por perto. Me sento no bar cujo garçom me apresenta o sorriso mais honesto. Peço a cerveja mais cara para retribuir sua gentileza. Abro um livro. Miller tem me feito companhia. Discordo de sua ânsia pelas fêmeas parisienses. Mas pelo menos ele se senta comigo gastando sua filosofia. Não gosta de mulheres inteligentes. Quem gosta afinal? Acho que bebi demais. Ninguém para dividir a conta. Meu pé esquerdo vai de encontro ao direito e os dois me levam para casa, sem que eu possa reclamar. Freando o ímpeto de todo dia, me recuso a ligar o computador dessa vez. É meu protesto bêbado. Quase uma revolução. Mas mudo de ideia. Escrevo uma crônica. Me sinto vingada. Alô, todos vocês, protegidos no calor das suas casas. Eu os detesto. Mas não posso viver sem tê-los por perto! Voltem para mim, brado pela janela. O vizinho me manda calar a boca e dormir. Penso em citar Diderot. Esqueço no momento seguinte. Lembro de uma vodka no congelador. Penso em Trostky. Morreu no México. Nunca fui ao México. Onde fica o México? Vou procurar na internet. Acaba a luz. Me estranha o fato da escuridão ser igual de todos os lados. Pensando nisso, durmo o sono dos alcoolicamente alterados. Profundo e sem sonhos, esperançoso de que o mundo mude enquanto a noite passa. Ou eu mude de mundo, quem sabe do que é capaz o literato que nos dá vida. Boa noite Henry.
 
Marina Costa