sexta-feira, 5 de julho de 2013

Equadorismos

 
São tantas as formas virtuais de vida que me sinto meio que morta e afogada no anacronismo de minha ânsia de contato. Sinto falta de abraços. Anseio por brindes e sorrisos. Sinto falta, por vezes, do tapinha nas costas que tanto abomino. Spam estraga meu dia. Minhas amigas, que tenho em tão alta conta, acham que me animam com uma mensagem truncada da Lispector, que circula na internet. A tela é fria. E o túmulo de Clarice, revirado por sua revolta a falta de direitos autorais. Que não sejam direitos. Mas que sejam leais. Saio do trabalho ao léu, minguada e sozinha como a lua lá em cima. Todos on line. Ninguém por perto. Me sento no bar cujo garçom me apresenta o sorriso mais honesto. Peço a cerveja mais cara para retribuir sua gentileza. Abro um livro. Miller tem me feito companhia. Discordo de sua ânsia pelas fêmeas parisienses. Mas pelo menos ele se senta comigo gastando sua filosofia. Não gosta de mulheres inteligentes. Quem gosta afinal? Acho que bebi demais. Ninguém para dividir a conta. Meu pé esquerdo vai de encontro ao direito e os dois me levam para casa, sem que eu possa reclamar. Freando o ímpeto de todo dia, me recuso a ligar o computador dessa vez. É meu protesto bêbado. Quase uma revolução. Mas mudo de ideia. Escrevo uma crônica. Me sinto vingada. Alô, todos vocês, protegidos no calor das suas casas. Eu os detesto. Mas não posso viver sem tê-los por perto! Voltem para mim, brado pela janela. O vizinho me manda calar a boca e dormir. Penso em citar Diderot. Esqueço no momento seguinte. Lembro de uma vodka no congelador. Penso em Trostky. Morreu no México. Nunca fui ao México. Onde fica o México? Vou procurar na internet. Acaba a luz. Me estranha o fato da escuridão ser igual de todos os lados. Pensando nisso, durmo o sono dos alcoolicamente alterados. Profundo e sem sonhos, esperançoso de que o mundo mude enquanto a noite passa. Ou eu mude de mundo, quem sabe do que é capaz o literato que nos dá vida. Boa noite Henry.
 
Marina Costa

2 comentários:

  1. Miller, que não é bobo, conhece a beleza natural e despojada das garotas que caminham sublimes por entre a cidade tombada de inegável luz. Paris é vida pura --- uma cidade com vida própria. No ar, a história pulsa; os caprichos napoleônicos estão em toda parte e não há como não notar a riqueza de detalhes em todas as esquinas, avenidas, praças, parques, ruas. Um iluminismo surrealista, de Voltaire a Éluard.

    Nostalgias à parte, que o cálice de inspiração que provoca toda essa êmese que alivia e angustia não seque. E como um adendo final, jamais tinha parado para pensar na antítese contida na frase "os livros são seus melhores amigos". Até agora.

    Eu amei esse seu texto. =)

    ResponderExcluir
  2. Obrigada Alexandre! Vou te dizer que conhecer o casal Anais Nin e Henry Miller provocou uma revolução na minha literatura... Fiquei até desispirada ante tanta criatividade literária que vi nos dois... ou melhor, me senti intimada a buscar mais em mim!

    ResponderExcluir

Para contato, nosso email é vidanacronica@gmail.com