terça-feira, 30 de julho de 2013

Titubeando


O fogo crepita vermelho e vivo no fogão enquanto ela percebe, de soslaio, a neblina fria erguida no jardim. Concentra-se em vão na massa que tem nas mãos, a cabeça vai longe e solta naquelas chamas dançantes. Parece ver coisas entre as labaredas. O frio que sobe do chão de pedra não é sentido tal a força da visão. Grilhões que se rompem. Muros caindo. Gritos de luta. De ver, passa a ouvir o clamor dos que querem fugir. O pão cresce na gamela, o ar gelado se dissipa e um bater de portas a desperta desse mundo longínquo de gente livre. Cai o suor do rosto molhando o calo dos dedos. Há, assim mesmo, um belo sorriso. Não diminui o martírio. Mas alivia a ansiedade da espera.

Marina Costa

2 comentários:

  1. Trabalho escravo? Luta pela liberdade? Submissão por opressão? Não desistir do sonho? Imagino infinitas interpretações para o fantástico texto que escreveu, mas é impossível dizer qual foi sua intenção ao criá-lo. Gostei pra caramba! É legal deixar essa janela de opções para que o leitor se questione sobre o próprio ponto de vista. Parabéns! =)

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  2. A intenção pode ser um pouco de tudo que você citou, a inspiração eu posso dizer com certeza de onde vem: Eu, Tituba, Feiticeira, de Maryse Condé. Um livro que por acaso chegou as minhas mãos e une vários temas que me interessam, dentre eles a inquisição, Salem, escravidão. Um livro tão maravilhoso que inspirou esse textos aí que você elogia! Obrigada pela constante companhia, Alexandre!

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