domingo, 25 de agosto de 2013

As rosas não falam



O labirinto de flores acolhe em sua densidade verde uma rosa muito branca e outra bem vermelha, ambas a desabrochar. O vento, cupido esperançoso, tenta aproximá-las com rajadas de incentivo, o que parece não funcionar. Tal qual diferem em cores, assim sol e lua só atingem uma por vez a cada volta do dia. Em comum apenas o fato de que compartilham o mesmo céu.

Se falassem, talvez tivessem muito que dizer; uma declaração sobre a beleza, uma paixão pelo mundo vibrante, vontade de sorrir ou chorar junto. Mas não há sussurro. Talvez, com muita atenção, ouve-se um suspiro de melancolia. Emitido no momento em que certo cavalheiro passa, distraído, pelo labirinto. Para, surpreendido. Olha e decidido, colhe a vermelha rosa, leva esta até sua cartola e a transforma em adorno vaidoso. Perde-se no verde das folhas até sumir em algum corredor infindo. E a rosa branca, pobre infeliz, descobre que há algo mais duro e cortante do que o silêncio. Chama-se ausência.

Marina Costa

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Ansiosismo



O relógio parou em infinitos 47 minutos de algum momento insalubre em uma manhã perdida. Olhando com ânsia o movimento aparente da  terra se torna apenas uma ilusão cortante. Bocas se abrem mutantes e braços se encolhem dissolvidos na visão impedida pelos segundos que insistem em se manter estáticos. Parou o vivo movimento infinito ao acertar a gélida quina da rotina. A mente dança entre a fúria e a sandince armando estratagemas para manter seu pulso. Traça planos para mil anos futuros. Raciocina sobre ideias a cumprir antes de sucumbir. Impulso de contactar alguém na Sibéria ou lançar um pombo correio até a mais próxima janela. Procura suplicante, na caixa  preta invisível, notícias que circulem no mundo lá fora. Música de Strauss na tentativa de acalmar o descompasso. As unhas já se foram há muito, os cabelos estão sendo meticulosamente arrancados. E por trás o zumbido do fantasma temido em seu agonizante tic taquear. Como na tumba escura de algum antepassado esquecido, o tempo retumba sombrio sem se mover. A saída se transforma em um tronco enrijecido, portal perdido. Não há como correr. As doze horas não vão bater. O ansioso e absurdo animal, prevê apenas uma hora nesse dia esquecido: a de enlouquecer.

Marina Costa