segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Pedreiragem



- Mas olha se eu não vou!! Disse o homem de laranja deitado, semi adormecido sobre um boné empoeirado que tampava parcialmente seu rosto bronzeado.
- Eu vou também!! Retrucou o de cigarro nos lábios, olhos perdidos no horizonte da obra como a pensar numa grande questão.
Eu reconheço a direção do gracejo e faço cara de paisagem para terminar de passar. Normalmente responderia com algum desacato atrevido aos dois cidadãos. Outro dia ainda chamei um jovem, confesso que até bem bonito, de "aleijado tarado", visto que estava se apoiando em muletas e me lançou desavergonhadamente um adjetivo extremamente abusado que opto por aqui suprimir. Confesso que eu me encontrava em uma péssima manhã. E mesmo se estivesse em uma boa. O fato é que quis humilhá-lo dada sua condição claramente dependente e seu atrevimento frente ao meu pequeno tamanho e rosto infante. Talvez se eu fosse uma mulher maior, ele não me importunaria. O fato é que a expressão que ele me lançou de volta me fez perceber que atingira o alvo. Ele se desarmou. E sinceramente espero que tenha receio em mexer com mulheres na rua de novo. Principalmente no sábado cedo. Muito cedo.
Agora voltando ao motivador dessa crônica, o que me impediu de mandar as favas aqueles dois pedreiros semi conscientes de seus atos (reza a lenda ser a cantada tão automática que caso a mulher volte interessada, para lhes passar seu telefone eles perguntam, confusos, se o problema é hidráulico ou elétrico...) é que me vi caindo na máxima tantas vezes ouvida de que: uma mulher se irrita quando mexem e se aborrece quando deixam de fazê-lo. Essa questão freudiana, dúbia e machista, me colocou em uma sinuca de bico, considerando que apesar dos meus amplos estudos históricos e práticos do feminismo ultra independente, devo confessar haver em nós uma certa vaidade que realmente pode vir a se ofender na falta do já esperado perturbar.
A questão é que a cantada, a grosso modo, nos transporta para a condição de objeto inanimado que tanto lutamos para deixar de lado, mesmo tendo no time contrário mulheres frutas a ofertarem em abundância o que deveriam racionar e distribuir com parcimônia (deveriam? machista eu?!). Mas a ausência de uma observação, um elogio, um bom dia cantado, nos transforma na figura invisível que também fomos durante muito tempo nessa era patriarcal que teima em terminar.
Antes que meus leitores se sintam enfadonhos quanto a este discorrer inesgotável sobre "mexer ou não mexer" eu darei um último conselho: pedreiros de obras, aleijados de plantão, caminhoneiros de estrada, namorados, amigos, irmãos: mesmo numa frase como "mas olha se eu não vou" pode haver certo tato delicado, ainda que com uma pequena pitada de malícia, que arrancará da mulher em sua correria um sorriso de atrevida simpatia. Lembrem-se da ternura com que se deve elogiar a beleza, seja qual seja. Posso dizer, defensora incansável das relações bem vindas, que faz toda a diferença se doar para aquilo que se diz!

Marina Costa

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Sol Mi Fa




A melodia da canção chegou aos meus ouvidos em uma tarde de certo iluminado domingo. O vento brincava entre os ramos de um velho salgueiro e o sol resplandecia em seu rosto brilhante. E ele falava. Com o resto do mundo em silêncio, entoando uma canção que eu já conhecia desde antes de ouvir o timbre de sua voz antiga. E eu ouvia. E cada quadro de sua história mágica se materializava em minha mente como se eu estivesse lá. E eu estava. Em terras distantes, com seres brilhantes, tambores ressonantes e raios luminosos nas preciosas pedras. Sol que me fez bem. Faz e fará.

Marina Costa

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Reverlado



Ás vezes, por mais campos já vistos, mais flores já tocadas, mais mãos já sentidas, mais terras exploradas, um redemoinho de acasos nos leva de volta onde tudo começa e aí, desatentos que estamos a pensar no já sonhado,  atentamos para um ponto escuro, desconhecido, naquele exato lugar onde nossa vista já passou, por muitas e muitas vezes. E aí ao explorar o desconhecido descobrimos  que o sol pode sim nascer em uma caverna. A luz brilha no oeste. Só depende do jeito de ver e da vontade de olhar.

Marina Costa

domingo, 15 de setembro de 2013

Línguas, Espumas e Olhos Travessos


Compunham a cena da noite de começo. Palavras em profusão, vindo do branco e do negro, com pinceladas de verde e pitadas de vivo vermelho. Espalhavam-se pelo ar  e ao estourar traduziam sempre o mesmo sentimento, por mais que o assunto variasse tanto quanto o vento. Algo misto de consciência, coerência, impotência e muda insatisfação. Compartilhadas assim, sob nuvens e estrelas, tais sensações ficavam a circular, como fumaça viva ao redor dos dois indiferentes ao céu que lhes ouvia. Horas tantas, alta ia, partiram dali deixando uma impressão incômoda de dúvida, gravada mais uma vez no chão. Entre não saber e não agir, como conviver com a escolha de ir? Vai. Tudo termina da forma com que todos aprendemos a lidar com essa frustração. Dando as mãos. E oferecendo um sorriso de compreensão.
 
Marina Costa

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Poço dos Desejos

Não tinha sequer uma moeda nos bolsos rotos do macacão. O tênis, velho como a estrada, chutou uma pedra com insatisfação. Também, deu de ombros, não havia o que pedir. Casa não queria, casar era algo de que fugia e o que comer, sincero sorriso e boa conversa sempre conseguia. Meio que sem rumo, como preferia, sentou para descansar do ócio na beirada do poço. Tentava ver o fundo mas era escuro de mistério, como seu futuro. De súbito uma ideia brilhante lhe ocorreu. Mochila no chão, abre o fecho e busca freneticamente um pequeno objeto que, mesmo esquecido, estava ali. Tocou na pedra fria e riu. Com as mãos em concha, olhos fechados, murmurou com fervor, sorriu com fé e lançou o cristal que tinha vindo de longe e por boas mãos. Se apoiou e esperou até ouvir a água se fechar sobre a pedra. Juntou seus poucos pertences, sorriu ainda uma última vez enquanto olhava para trás e tendo o vento por guia, partiu. Do céu, uma pluma branca caiu calmamente até pousar, devagar, na água. Era um sinal invisível de que seres mágicos concedem o que pedem aqueles que não ficam esperando chegar...
 
Marina Costa

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Reflete


Hoje, que não é agora, nesse lugar fora do tempo, há um som melancólico mas não de lamento. Talvez reconhecimento. Uma torrente de dizeres, não saberes e quereres que bate lá na frente e volta polida, brilhante, por vezes até ofuscante mas sempre esclarecendo ao escarnecer. Na hora que termina e vai-se o devaneio, por trás fica o reflexo no espelho. Há que se ver no outro para se compreender. E a imagem pisca faceira, cúmplice dessa verdade que acabam de entender.

Marina Costa