quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Motivo

Ensandecida, ela rodopiava pela sala como uma criança histérica descobridora do desequilíbrio. E caía e ria e se punha de joelhos para de novo pular. Dava cambalhotas, abraçava as próprias pernas, rebolava e remexia, extasiada de tanto gritar… E nesse catatônico estado, nesse torpor louco de alegria se deixou levar até o cansaço que a acomodou gentilmente no sofá, mão sob o rosto, sono dos puros, sorriso de quem subitamente alcançou o paraíso. Denso silêncio se fez. Em cima da mesa o envelope rasgado ao meio. Te levo flores, querida minha, quando em breve chegar. Eu vivo.

Marina Costa

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Entre tons de sons

 
 
A luz pouca que entrava pela janela mínima era um pálido reflexo de uma lua certa mas escondida. O som da noite se calou para deixar passar notas e falsetes discordenadamente errantes pelo ar. Era o tom. Dentro, havia um silêncio turvo de contemplação. Os olhos nada viam, mas a melodia desajustada hipnotizava misticamente mãos e braços, transformando o frio do chão em um aconchegante e familiar abraço. Ouvia-se um som. Por horas o tempo suspenso, onde palavras retiraram-se cabisbaixas por terem perdido sua função. Um espiritual dissonar cozia em fios o desatino que prendia de estranha forma a atenção. Era uma desejada prisão. Até que fez-se a luz de mentira e os sonhos, quase palpáveis, chocaram-se contra a parede branca. O fim fez-se novamente presente, convidado sempre adiantado de momentos exímios. Mas a sonata após tocada nunca termina e vai repetir-se na mente enevoada. Sempre a entreolhar o instante de novamente se fazer soar.
 
Marina Costa

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Quando não dizer faz sentido


Tem uma hora no convívio, no "tête-à-tête" diário, em que você já falou tudo e não tem mais assunto de onde puxar. Quando arruma, é baseado numa intimidade pretendida, quiçá fingida, que gera o esperado diálogo solidificado num teatro tal que a realidade sóbria termina por reclassificar como impróprio. Fica um sim pouco sonoro, dito em lugar de um desprendido não e o ponto final é tão grande que nem o gato de Alice sorriria maior e mais sem graça. Ouve a voz profunda do nada e opte sempre pelo denso silêncio... Tão repleto de verdadeiros significados que somente a sincronia fina e sincera é capaz de acatar. Onde não há a vulgaridade das palavras não tem como errar. E assim quando o realmente necessário for dito será tão pleno e construtivo que retrucar se fará inútil e um aperto de mãos quentes bastará para ampla e cúmplice compreensão.
 
Marina Costa



quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Lendas

Chorou até dormir, como na noite anterior e naquela antes dela. Exausta de lágrimas e esperanças frustradas ao ver que o dia raiou, alisou o rosto inchado com as costas da mão e apoiou no colchão para se erguer. Uma luz tímida entrava pela fresta da cortina quando um som agudo ecoou pelo quarto fechado. Não deixou seu coração saltar dessa vez. Ao segundo ressoar, entretanto, levantou-se de um pulo e se apoiou no parapeito da janela, lançando além seus olhos límpidos na busca desesperada de alimento para seus sonhos. Viu apenas andarilhos em farrapos. Sujos, pobres e fracos como seu herói jamais seria. Veio o aperto no peito e o choro contido. E a lágrima abriu caminho para o sorriso, quando pingou sobre um lírio misteriosamente deixado na janela, na forma de promessa. 
 
Marina Costa

sábado, 5 de outubro de 2013

Cadência


Alta lua escura, na noite mais profunda que deixa assim brilhar as estrelas esquecidas. Olhos pregados no céu sem nuvens, límpido e claro a seguir os pensamentos em cadência, ainda que negros. Há um que de tensão duvidosa, pesada como o ar da quieta escuridão. O fluxo de memórias frescas se mistura às fantasias criadas até que um leve pestanejar leva à um sonho insone que abarca toda a ilusão desejada. São visões turvas mas brilhantes de um sorriso, claro como o dia, que se funde ao sol, quente como o peito,  cheio de uma torrente de sentimentos... Desagua em pés lavando uma tristeza surgida de um passado tão velho quanto o tempo e tão seco quanto cinzas. Inunda e acorda ainda antes da aurora, com o susto a espantar as visões do futuro. Alta lua escura, na noite não tão densa. Sente uma vontade imensa de rir da vida. E o canto de um pássaro azul, vindo do mundo da mente, coloca em dó maior um ponto final no pensar sem fim. Há de haver sempre outro dia, reflete feliz; até que tudo vire pó. E nos faça sonhos...

Marina Costa