segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Pelos elos das eras

 
Passaram meses para o ano ir e nos deixar aqui sentados, na soleira da porta, com olhos vazios e mãos abanando, pedintes de tempo, de sentimento  e entendimento da vida. Horas que escorreram e levaram, diluídos, desejos insatisfeitos, ideias abandonadas, sorrisos contidos e abraços escusos. O peito cheio de frustrações que vão sendo enterradas nas covas da memória. É tempo de novos intuitos, novos projetos de ser outro humano, novas promessas de melhorias insípidas e utópicas. Mais amor ou menos guerra, talvez ler poesia. Se não há sonhos para edificar a passagem de outro ano não há porquê fazer tal travessia. Resolutos, levantamos e entramos, fechamos a porta na cara do passado e respiramos fundo para o novo mas já conhecido futuro. Haverão, sabemos bem, planos não concretizados. Desapreço vasto e apego incerto. Egoísmo obcecado. Mas sempre com esperança de que tudo mude no virar infindo do calendário. A vida não pode ser apenas ficar a ver a areia cair. Há que se aprender a sempre reconstruir castelos de pó... Para esquecer que o tempo nos soterra por mais que tentemos não parar para olhar.
 
Marina Costa

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Então é Natal

 
“Não, eu não aceito comprar um falso, pirata” (vide link no final da crônica).
 
Então eu não como bem, não vou ao cinema nem mesmo ao teatro. Não estudo nem viajo, porque tudo que me importa é mostrar para eles que estou a rigor, vestido de acordo, posso participar do que não fui convidado mas os comerciais da tv me intimidam a ir.
 
Bolsa família não dá para comprar calça de 300 reais que uma adolescente precisa. Tênis de mil é estratosfericamente fora do orçamento, mas é obrigação tê-lo para mostrar dignidade no rolê.
 
E sobe a classe sobe a ostentação. Não pensem que dívida é luxo de favelado não. Há quem, no meio da boa elite mineira, se endivide por compras semanais em Nova York. Com direito a jatinho particular. Para ir de manhã e voltar de tarde. Conto o milagre mas se falar o santo arrisco meu emprego.
 
Enfim, é natal. E as lojas vermelhas e verdes estão monstruosamente sorridentes. Os falsos velhos Nóeis estão ainda mais fajutos em suas barbas cada ano mais plastificadas. A cidade brilha com luzes que em Brumadinhos da vida fariam envergonhar o SUS, tão sem recursos. Falta educação mas quem liga se jinglam os bells?
 
Mais um ano eu fico aí, deprimida, a torcer o nariz para as bolas coloridas. As notícias são as piores possíveis mas Cristo vai nascer outra vez e tudo vai ficar harmonicamente em paz… Até chegar janeiro e com ele a fatura do cartão de crédito estourado, o aluguel atrasado e o iptu. Para esfregar na cara dos ingênuos que nesse mundo de capital, natal é para pouca gente.
 
Feliz natal (para você que tem)!

Marina Costa


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Você não precisa namorar (ou noivar, ou casar ou qualquer coisa assim)?

Essa crônica foi motivada por este post aqui ó, que gerou uma discussãozinha na minha timeline e que está, ultimamente, muito em voga nas mesas de bares da minha vida…

 
Marina Costa


Pois é, Baldizinho querido! Fica fácil e poético escrito assim né. Mas e você? Tá solteiro? Com o coração bem resolvido, seja junto ou sozinho? Ahhhh, eu não acredito não. Sabe porquê? Porque o inferno não é você! São os outros…

Resumindo, o problema todo se divide em, necessariamente, 3 aspectos com seus respectivos subs:
a) Enfiar isso na cabeça das pessoas de forma que elas entendam que as suas conexões neurológicas são embasadas nos próprios sentimentos raciocinados e não no simples fato, vulgo recalque, de que no final das contas elas se casaram e você (ainda) não! Se prepara, que a cara para o discurso de “Eu sou solteira e feliz” é sempre a de “Ah vá…”
b) Mostrar pro mundo que a frase antes só do que mal acompanhado é potencialmente muito mais livre e ampla do que parece: sozinho você aprende a se virar e edificar para que nos intervalos com uma eventual má companhia hajam bons momentos, justamente pela condição dela e você serem más ( ou traduzindo, “aquele que foge dos padrões tradicionalmente aceitos”).
c) Viver em sociedade significa se sujeitar a aceitar fases na vida. Como eu não conheço muitos ermitões por aí, temos o resultado da aceitação: você VAI ser infeliz em algum ou muitos aspectos, ponto. Resultado da negação: você VAI ser de certa forma excluído e se sentir incapaz, terminando infeliz em algum ou muitos aspectos. Ou nas palavras de Margareth Mead, ganhará o eufêmico rótulo de “inadequado”.

Se é para apontar responsáveis, na minha opinião, os culpados são 3:
a) Walt Disney: com sua infeliz (para não dizer maldita) ideia de amor romântico para infantes. Se deus existe, hoje você está queimando no inferno eterno (a rixa aqui é pessoal, confesso);
b) Seus pais: cientes da m* que é a adequação do ser social te prepararam para cumprir um papel ridículo num teatro inevitável e não te prestaram um auxílio decente  por medo de você ser o tão temido “revoltado”.
c) Seus avós: que deveriam ter mandado a tia velha trabalhar e conhecer o mundo ao invés de buscar um marido come, dorme e reclama, futuramente dependente de viagra como se isso resolvesse a vida vazia dela.

A solução também são 3 (porque se dois é bom…):
a) Leia, leia, leia!!!!! Regina Lins, Simone de Beauvior, Durkheim. Tanto para os meninos quanto para as meninas. Esclarecimento e conscientização da própria situação é a única coisa que pode livrar as pessoas das amarras sociais sem autolamentação ou culpa. Dane-se quem acha que você deveria casar se você acha que não. Mas até chegar a esse nível de desprendimento da opinião alheia… haja terapia.
b) Responda com a boca cheia para amigos alienados, parentes condicionados e afins: “Na boa, QUE-RI-D@, vai cuidar da sua vida, que por sinal é horrorosa ou você não se preocupava com a minha!” Se as pessoas fossem mais francas ao invés de mais falsas a medida que o tempo passa, as coisas estariam espinhentas mas muito melhores, emocionalmente falando.
c) Se cerque de gente que está mais preocupada em conhecer o mundo e outras culturas milhares e saia do convencionalismo da sua estagnação atual. Isso vai significar levantar (e muito) do sofá além de romper laços com pessoas que você acreditava únicas. Já dizia papai, para finalizar: o cemitério, minha filha, está cheio de insubstituíveis. E cuidado com os canalhas…

domingo, 15 de dezembro de 2013

Antonín

(Publicada em 26.08.2012 - vidasetechaves.wordpress.com)

Entediado com o trabalho rotineiro e interminável, ele lançou pelo basculante superior um olhar acuado e triste. Queria ver-se livre de mais um dia sempre igual. Ouvia gritos infantes e folhas balançando ao vento da tarde e sentia-se como uma estátua de chumbo, presa àquela cadeira pequena. Era todo goma. Goma e cortesias falsas. Mas sonhava-se em chinelos de dedo. Largas roupas coloridas, distribuindo abraços quentes.

Observando atentamente o virar das horas no relógio digital, afastou-se com ímpeto da máquina contadora e desceu correndo as escadas, rumo a liberdade da rua fresca de por do sol. Voltou o sorriso, o peito inchado e a elasticidade de menino. Estava de novo sem rédeas. E agradecia por isso, aos deuses dos a toa.

Veio outra mudança de relógio, ditando duramente uma nova semana, prometendo os mesmos compromissos e bons dias mecânicos. Mas ele não se levantou. Dessa vez a cama estivera vazia por todo o final de semana. O gato miava de fome e incerteza.

No quarda roupa o terno guardado. Na gaveta, o crachá engavetado. Foram-se da cômoda as meias e poucas bermudas velhas. O resto era caminho a ser deixado. Um cachecol para proteger do frio enquanto uma morena libertária não aparecesse em alguma esquina. E pelas ruas infaustas de uma segunda feira comum, parece-me que ouvi um feliz assoviar. Lembrava a sinfonia nº 9. Em mi menor.

Marina Costa

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Mas e a vida

 
 
Tenho comentado amiúde sobre morte de jovens amigos, conversa casual, e as pessoas, chocadas, me dizem que trato o tema com extrema naturalidade... Mudo o assunto para interesses sexuais diversos e elas, coradas, me censuram, argumentando que eu abordo certos tabus de forma prática demais! Acuada, reclamo do absurdo que é nossa forma subjugada de vida na cidade grande, desajustes que aceitamos tão facilmente como violência banal, trânsito abissal e coisa e tal e então elas me olham, complacentes, dizendo que eu deveria aceitar melhor certas coisas da vida. 
 
Serei eu ou o mundo a precisar de uma urgente reformulação de conceitos?

Marina Costa

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Dó: S.m. Do latim, dolus. Do grego, doloridus. Do bom português, aquilo que se sente de ruim quando toda expectativa em algo bom é dissolvida.

Marina Costa