domingo, 15 de dezembro de 2013

Antonín

(Publicada em 26.08.2012 - vidasetechaves.wordpress.com)

Entediado com o trabalho rotineiro e interminável, ele lançou pelo basculante superior um olhar acuado e triste. Queria ver-se livre de mais um dia sempre igual. Ouvia gritos infantes e folhas balançando ao vento da tarde e sentia-se como uma estátua de chumbo, presa àquela cadeira pequena. Era todo goma. Goma e cortesias falsas. Mas sonhava-se em chinelos de dedo. Largas roupas coloridas, distribuindo abraços quentes.

Observando atentamente o virar das horas no relógio digital, afastou-se com ímpeto da máquina contadora e desceu correndo as escadas, rumo a liberdade da rua fresca de por do sol. Voltou o sorriso, o peito inchado e a elasticidade de menino. Estava de novo sem rédeas. E agradecia por isso, aos deuses dos a toa.

Veio outra mudança de relógio, ditando duramente uma nova semana, prometendo os mesmos compromissos e bons dias mecânicos. Mas ele não se levantou. Dessa vez a cama estivera vazia por todo o final de semana. O gato miava de fome e incerteza.

No quarda roupa o terno guardado. Na gaveta, o crachá engavetado. Foram-se da cômoda as meias e poucas bermudas velhas. O resto era caminho a ser deixado. Um cachecol para proteger do frio enquanto uma morena libertária não aparecesse em alguma esquina. E pelas ruas infaustas de uma segunda feira comum, parece-me que ouvi um feliz assoviar. Lembrava a sinfonia nº 9. Em mi menor.

Marina Costa

2 comentários:

  1. Tomara que as férias desse ano não esperadas se tornem inesperadas.

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  2. Ultimamente ando esperando quando vou finalmente aprender a não esperar....

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