terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Passagem


A ampulheta não dá trégua e por mais repleta, parece cada grão ser o último. E ao invés de movimentar, de dar a volta ao mundo, olho desesperada o abundante cair. Perdida em devaneios, cultivo um certo amor que não vingou, em outro vejo o reflexo de uma indecisão, o próximo me mostra a companhia que não fiz e sinto aquele que diz que talvez o amanhã seria sim. Imóvel, no canto da sala, conto e choramingo momentos. De dentro do vidro meu duplo afunda na areia, gritando com olhos mudos que a vida não é infinita, o corpo sempre jovem como o sol vai se extinguir e todos os meus “nãos” vaidosos são piada curta. Essa imagem de contrastes me leva a agir. O olhar vago desanuvia e busca enxergar além. Minhas pernas correm, para fora do tempo, a buscar paisagens que caibam na eternidade do meu momento. E assim cai levemente o último grão de ontem.
 
Marina Costa

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Uma vida por dia


Começa com o sol nascendo e entrando, em raios ainda brandos, pela janela semi fechada. Um olho se abre, depois o outro, uma piscadela ainda desentendida de contexto... A percepção dos sentidos vai voltando aos pouquinhos e junto com eles, as preocupações que dançavam na cabeça antes do sono escurecer tudo. Mas com uma lufada de vento fresco, o sorriso se arma outra vez, pronto para enfrentar as insanidades da correria que perturbam a paz de espírito adquirida. A vida começa de novo e com ela uma infinidade de possibilidades a postos no horizonte. Claro ou escuro é tudo questão de saber olhar com mais alegria e menos medo. Assim é que todos os dias desperta mais uma vez a intensa vontade de viver!

Marina Costa

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

De sempre ir indo

 
 
Eu queria sempre um consolo e essas coisas tendem a sumir com o tempo. Parece que quanto mais idade, mais experiência de mundo, menos você precisa de colo, de ombro, de palavras de incentivo. Quanto mais desbravador a gente se mostra menos importante fazemos parecer as decepções. Todo mundo olha com tanta certeza da recuperação certa que ninguém procura mais estender a mão. Consolar alguém assim, tão a frente, tão independente, seria uma confissão de que afinal não há muita esperança de que tudo possa ir sempre bem. Os fortes sobrevivem, a custa de falsos suportes para se manterem de pé. E na fragilidade da vida ninguém quer acreditar. Não fomos ensinados a tal, afinal.
Há que um dia haver colos por telefone, como daqueles números de prevenção ao suicídio que os candidatos a suicidas podem ligar. Anonimato claro, de quem fala e de quem ouve para que a vida continue sem perturbar a ilusão de força que os grandes exercem sobre os pequenos.
 
Marina Costa

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Do bem (ou mal) de ser dona do próprio nariz

 
 
- Não precisa não menino, deixa que eu carrego sozinha!
- Gente, mas nem venha me buscar não, descubro onde é, chego já!
- Já fiz, dei meu jeito, mas agradeço assim mesmo, viu?
- Homem, dê isso aqui, eu conserto para você!
- Eu? Não sei não, amanhã já devo estar em outro lugar, nem precisa preocupar que sei andar sozinha tem tempo...
- Ah, sim, mas resolvi ontem mesmo, estava lá, meio que a toa, daí eu fui e fiz!


***
- Menina, mas tem alguma coisa que eu posso fazer por você? Nunca vi independência tamanha, será que eu tenho utilidade? Ele pergunta, meio que em tom de brincadeira...

***
Daí ela pára e pensa... toma um puxão de orelha da delicadeza feminina e olhando aquele rosto sincero e iluminado começa a sentir o comichão do desejo de parar de andar sempre em frente e se deter, ainda que por pouco tempo...
- Pode sim! - diz sorrindo - Senta aqui do meu lado e me ajuda a contar estrelas... Não consigo fazer isso só, não!
 
Marina Costa

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Karma Calma


 Quando a alma aperta o peito e a lágrima pensa em descer, o sorriso suspende a agonia de viver assim, sem saber direito pra quê. A apreensão continua, aflita, a buscar respostas mas o coração, sábio conhecedor do amanhã, acalma a mente… Bons ventos sempre vêm apagar a tormenta da incerteza. Como o sol do novo dia a esperança reacende. A vida pulsa para podermos morrer e renascer. A todo momento.
 
Marina Costa
 
Crônica originalmente publicada sobre o título de Calma Karma (sabe... quando a ordem dos fatores não altera o produto...) http://vidasetechaves.wordpress.com/2014/10/27/calma-karma/
 

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Concepção


Da janela ela contemplava o novo mundo, calma harmonia, dentro e fora. Verde, brilho e luz transformavam seu jardim num pequeno éden perdido, a salvo de todo o caos que reinava na cidade de onde fugiu. Fugiram, para dar ao novo ser um jeito mais digno do que o humano de viver. Ela olhou para a barriga e na confusão de sensações e incertezas sentiu-se, de certa forma, feliz. Os sonhos de outrora se renderam ao calor do lar e ao peito do outro, que lia embalado pela rede. Ela sorriu. Ele sentiu e retornou o sorriso, emoldurado pelos olhos honestos que a fizeram deixar o avião da ambição partir. Ele se levantou, beijou seu ventre e ali se deixou ficar, protegido como nunca esteve, no colo daquela que aceitou sua paz. Ela afagava seu cabelo e pensava em paisagens, risos fáceis, estradas infindas… A chaleira apitou clareando o devaneio. Ele apertou sua mão e silencioso foi buscar o chá. Antes que voltasse, ela limpou do rosto uma lágrima sentida. O paraíso tinha um preço. E amorosamente pelo resto da vida, ela se dispôs a pagar.
 
Marina Costa


quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Noites e Noites de Amor e Guerra


Ontem outra vez encontrei Galeano. Ele fumava, como sempre e divagava como nunca. Dizia que esse tal coração, assim tão independente, não passa de bicho carente que se finge doente para ter atenção. Mais ainda, me ensinava a aparentar dureza para não desvanecer a esperteza de quem diz gostar de solidão. Eu ria, deliciada pela fumaça, pelo hálito de Havana e pela faceirice daqueles olhos velhos, de quem muito mais viu que viveu e muito resistiu a se lançar na frente de um dos inúmeros desgovernados trens carregados de vida. Sei que ao final do sonho, depois de horas de palavras sem pé e com muita cabeça acabei por me despedir sem palavras e ele também não me disse adeus. Foi assim, sem abraços ou hipocrisia, sem até logo ou nunca mais, coisa de quem não precisa de cortesia para se fazer gentil. Ainda me lembro de ouvi-lo ensinar que cumplicidade carece de silêncio mais que de certeza. Nos meus sonhos gosto de ver reinar a ausência sepulcral de voz nenhuma. Porque eco é bicho invejoso de alegria alheia. E falta do que dizer só pode ser sinal certo de infindo pensar.
 
Marina Costa

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Juízo ao Final


No estranho novo dia que nasceu, a lua não se pôs e o sol não se ergueu. Um lusco fusco sombrio reinou, expulsando com parcas forças a noite escura e impedindo temeroso o dia de clarear. Nas casas, luzes incertas se acenderam, estranhando as sombras que pareciam não querer se dissipar. Cabeças foram surgindo pelas portas e janelas e uns viam nos olhos dos outros o medo do desconhecido que não ousavam pronunciar. Mãos foram se buscando e mães agarravam os filhos, com medo do bicho que poderia chegar. O pavor subiu com a neblina e a histeria do desconhecido começou a se mostrar. Os relógios, enlouquecidos, pararam de girar, pois sem o movimento do astro rei meio dia já não fazia mais sentido. Não se viam estrelas, Vênus era uma lembrança fraca e quando a primeira voz ousou falar, uma trovoada de ensurdecer retumbou nos céus, como anunciando um novo tempo de fogo e angústia. Eis que das nuvens desceu uma coruja, silenciosa e sinistra. Pousou na torre mais alta da igreja. Olhou cada um dos olhos temerosos e piou, uma sentença definitiva. A terra se abriu num grande rasgo e um a um, os casebres foram ruindo, cedendo espaço ao nada dos primeiros tempos. Ao fim de todo o barulho, a luz reapareceu, a bruma se dissipou e as pessoas como que despertaram de seu transe involuntário. Algo mais havia sido engolido pela boca do mundo. Além de tijolos e telhas foi-se junto, perdendo-se com os pertences, a memória.
 
Marina Costa
 

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Sirshasana

Créditos da imagem:  Jonas Peterson
 
Mariana está de ponta a cabeça, concentrada em manter suas pernas retas no ar. Nesse exercício antigravidade, esquece do armário vazio, do xingo do chefe e do corte da luz. Pensa apenas em manter-se assim, firme como uma palmeira que o vento oscila mas não derruba. Reparando nos dedos dos pés, o pensamento escapa para a manicure, que também foi cortada… mas é contido pela lembrança de que caminhar por conta própria é um prazer impagável. A vida do discípulo desperto é assim: percebe que quando o mundo tira, a vida revela o que realmente importa e sempre esteve lá.


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Musa


A solução para o meu dilema, garota morena, é o seu rebolar. Eu sento aqui, velho e sem serviço, só para apreciar o seu caminhar. E quando você vem lá, cabelo despenteado a sorrir, ah  mas eu ganho meu dia, deixo de lado o jornal e a bebida e te aprecio da boca bonita ao calcanhar. Você me dá um tchauzinho, quase uma esmola bondosa e eu tiro humilde o chapéu, para te agradar. E te olho até o virar da esquina, bela, fresca e sozinha, a dançar a música da juventude que uma hora há de passar… Mas até lá, morena, e muito depois eu sei, você fará o sol de Ipanema brilhar!

Marina Costa

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

(C)Oração

 
Independência ou sorte. É pelo que devemos orar enquanto pensamos no que vai estar nas urnas dentro de alguns dias. O Brasil, vendido aos pedaços, tendo suas partes arrancadas e destroçadas por agros, petros, e minérios negócios pede um socorro mudo que só seus filhos, deitados sobre este lábaro manchado, podem dar. Então, nesse dia tão simbólico para a nação faço um conclame para que um poder maior nos guie: o da consciência.
 
Marina Costa

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Fado


Sento em frente à luz de velas disposta a me fazer calar, proibindo mesmo que meu pensar em ti recaia outro momento. Do meu despertar até o instante de cerrar os olhos na madrugada alta, sua imagem fixa em minha memória me sorri mas a ausência do seu abraço me leva à nostalgia intrusa do que quase não vivi. Decido assim esquecer o momento em que a boa sorte me guiou em pensamento até a luz dos olhos teus... Apagar em um soprar a lembrança do céu de estrelas que noites atrás cobriu nosso silêncio. Permito que se vá a imagem do sol nascente que tendo se erguido imponente minguou frente à tua claridade maior. Prometo então a qualquer ser de minha devoção abandonar a sensação ainda viva de sentir o calor das suas mãos calmas a segurar o tremor das minhas. E decidida, pouco aliviada ainda que vazia, fecho os olhos fingindo dormir tentando impedir que tornem a cair as mesmas lágrimas resolutas. É então que, no sonho, tu vens. Sorrindo, claro como o dia, abre para mim a janela de uma conhecida vista e repete aos meus sentidos como é bom mais uma noite estar comigo. Esmorecem, outra vez, minhas tolas intenções. Se ergo castelos de pó, no mais bonito deles, tu vive comigo. De todos os sonhos sonhados, esse é o mais ansiado abrigo.
 
Marina Costa

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Sob uma sombra


Alguém morreu. Estava lendo sossegada sobre a árvore, aproveitando o calorzinho da tarde que começa quando do meu lado sentou-se uma moça bonita. Ela fungava. Eu, quis ser discreta, permaneci como se meu livro fosse de todos o mais interessante, desde a Origem de Darwin. Mas aí ela começou a soluçar. Imóvel, me desesperei. Não sabia mesmo o que fazer, afinal era eu para ela tão desconhecida como para mim ela se mostrava estranha. Os soluços foram aumentando. Olhei de soslaio, despistando. Ela mexia no celular. Abençoado salvador moderno das situações constrangedoras. Ainda assim, o choro não interrompia. E eu paralisada entre a estupidez do calor humano não pedido e a gélida ausência de caridade cristã. Não que a morte tenha me afetado com sua ceifadura próxima. De mais a mais, eu não sabia de quem se tratava. Mas aquela moça sabia. E sentia. E estava ali, tão perto de mim que me fez sentir como se eu fosse a mais ruim de todos os corações gelados da terra. Quando finalmente me resolvi a chegar perto, perguntar se ela estava com alguém, ou no mínimo se precisava de um copo de água, chegou um senhor. A pegou pela mão. Lhe disse que não havia certeza que (disse o nome de uma outra moça) estava no avião. E a levou dali, nos braços. Eu fiquei com um pouco da tristeza dela. Da tristeza de pensar que um dia bonito sobre uma árvore pode ser também a lembrança de uma perda dolorida.
 
Marina Costa
 
* Depois fui saber que a outra moça era a esposa de Eduardo Campos. E essa desconhecida que atravessou minha vida por um
acaso desses do destino, uma amiga do casal. À eles, quem foi e quem fica, toda a paz que pode caber nesses momentos de tormenta.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Sol do Meu Dia


Em agonia, grito. Olho para o infinito e insisto. Nem mesmo o eco me volta. No escuro, o silêncio é sepulcro, onde habito inerte a espera do teu renascer.
 
Marina Costa
 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Tortus

 
 
As pessoas estão com medo de serem ridículas. Essa sensação se entranhou de tal forma que todos não fazem mais do que simular situações, aliciar opiniões e, pior dos piores, analisar opções. "Não" quer dizer "sim" desde que adivinhado e o "sim" nunca sai porque aceitar virou sinônimo de fraqueza. Acatar significa ser vencido. Revelar sentimentos é a morte do ego portanto fruto terminantemente proibido. Todos queremos ser lidos e relidos mente adentro mas sem que a boca se abra. Ainda assim exigimos ter nossos desejos satisfeitos mesmo que nenhuma palavra seja formada. Pedir virou sinônimo de submissão. E a possibilidade de uma recusa então é o passe certeiro para uma vida de rejeição - fato abominável. A solução foi vestir esta brilhante carapaça isolante. Rir de tudo, olhar para tudo, estar em tudo mas efetivamente nada tem graça, o olhar não se fixa e o corpo é presente apenas enquanto a alma vaga a buscar mãos quentes... Que nunca serão encontradas... É o preço a pagar por querer estar a frente da vida. Um caminho vazio se percorrido sozinho. Detalhes bonitos só podem ser vistos por quem tem coragem de entrar em ruas sem saída e dar meia volta, ainda que envergonhado de um ou outro erro de percurso. Algo ridiculamente simples de entender, por mais que seja orgulhosamente difícil de aceitar.
 
Marina Costa

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Despertos

 
E o sol passou outra vez brilhante e morreu como o facho da última estrela cadente que vi antes de dormir enquanto apertava a sua mão na minha Acordei do sonho do sono, você já se tinha ido, esmaecido em brumas e não via mais comigo a abóbada celeste salpicada de pura luz. Amedrontada caí de novo no poço mais fundo, iluminado pelos holofotes de mentira… Mas eu verdadeireço na noite porque aprendi a viver de dia.
 
Marina Costa

domingo, 15 de junho de 2014

Instante

 
 
No tilintar de seus dentes perfeitos ressoa o riso fácil desprovido de motivo. Ri porque te faz bem ao espírito me ver assim, tonteante, ouvindo seus disparates. Ri transbordante enquanto acaricia meu cabelo, tirando uma mecha fina de minha testa com ternura tamanha que me enuvia o olhar… Eu estou aqui depois te tanto te buscar. Não há no mundo sonho mais doce do que este que tenho todas as noites. Despertando em ti…
 
Marina Costa

terça-feira, 10 de junho de 2014

Sonho de uma Mulher Medíocre


Ela passa pelas ruas avulsas alheia, sem levar os olhos aos olhares outros. Carrega um livro, para mostrar erudição, e fecha o semblante como forma de afastar sorrisos. Espera o sinal para atravessar e não se detém para elogios. Senta em um café escondido e pede, intimidada, um cappuccino. Abre então a leitura do momento e enquanto a vista se cansa nas letras pequenas a cabeça borboleteia em torno de pensamentos mal resolvidos. Há homens esperando resposta, amigas pedindo conselhos, contas para pagar dependuradas na estante. Mas o que realmente pesa naquela cabeça, que de oca pouco tem, é o único motivo do muito furor em torno de si. Para que tanta conversa, tanta saliva sem palavras, tanta promessa e tanto pedir. Ela imagina, e busca assim viver, que poderá refugiar-se em si, nos livros que prometem respostas, nos filmes que a levam para outro viver. Ela sonha com um mundo sem vivos. Sonha deixar de querer. Sem sangue, sem drama, sem ritos. O sonho da mulher medíocre é estourar, simplesmente, como bolha de sabão e sentir seus restos fluídos evaporarem no ar.
 
Marina Costa

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Desce


Esperavam juntos. Ela não queria ir primeiro e ele, como bom cavalheiro, segurou a porta. Sorriu, constrangida. Fechou os olhos, ao sentir o perfume dela. Quase ao mesmo tempo apertaram o painel. Ela rumo a saída principal. Ele para a garagem no subsolo. Começaram a descida. O silêncio sufocava a medida que se aproximavam do chão. 15º andar, ela suspirou forte. Passando pelo 12º, sentiu aquele olhar de canto de olho. 11º e ambos em sincronia cruzaram os braços. No 8º o elevador parou. Se entreolharam no momento em que a porta ficou por eternos segundos aberta. Ninguém, felizmente, atrapalhou. No 6º ele coçou a cabeça. No 4º ela ajeitou a bolsa. Ao chegar no 3º ele abriu, pensou e ao mesmo tempo fechou a boca, intimidado. Ela, frustrada de expectativa, abaixou a cabeça. 2º, 1º e era o fim infértil de mais um dia. Ao ouvir o sinal do térreo ele, num gesto rápido e nervoso, segurou sua mão. Ela inundada de dúvidas, esperou a porta abrir olhando em frente. Ele, em súplica muda, apertou seus dedos. E a última coisa que pude ver, do lado de fora no saguão foi um sorriso tímido mas doce iluminando o rosto dela quando deixou-se ficar e a porta do elevador finalmente se fechou para a crônica.
 
Marina Costa

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Alocução


Bondade. Substantivo bonachão e querido, que sorri sincero ao ouvir seu nome. Por mais duro o semblante de quem diz, vem a necessidade de sorrir quando a boca forma tais fonemas. Repita com calma: BON DA DE! E a palavra sai como bolha de sabão, leve e solta, encostando macia daqui e dali até que por fim estoura em um espinho mais afiado, que antes servia de acento ao rancor. Os respingos da bondade borrifam o ar com uma névoa branca, brilhante, multicor. E o peito, antes oprimido pelo negrume de um pensamento intruso e malcriado se alivia na bem querença dessa palavrinhha tão caridosa.
 
Marina Costa

domingo, 25 de maio de 2014

Meu pai saiu para comprar cigarros


 
Para minha mãe. No momento em que ele pôs o pé para fora, uma perna entrou janela a dentro. Olhou para mim e sorriu. Pôs o dedo em riste nos lábios e correu para o quarto. Risadas e barulhos altos eu ouvi enquanto tapava as grandes orelhas do meu coelho peludo. As pernas se foram, o riso passou e meu pai não voltou. Minha mãe deu-se por conformada, juntou as malas e fugiu com o circo. Eu e o orelhudo nos entreolhamos, obviamente perdidos. Algumas cenouras de plástico e um guarda chuva quebrado de coração nos acompanharam estrada a fora, na indecisão de tantos caminhos imaturos. Só uma certeza seguiria nossa trilha. Fumar, definitivamente, é um vício que arruina muitas vidas.
 
Marina Costa

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Sola


Sou cidadã sem pátria, desde que te vi partir sem sinal de breve regresso. Me sinto perdida em qualquer terra por mais belas que sejam as paisagens que me apresentam. Não há olhos que prendam mais que poucos momentos de minha tênue atenção… a não ser o bastante para buscar mergulhadas ali lembranças tuas. Quando sorrio é por me sentir assim pobre e só no meio da multidão. Deixem que se enganem com minha turva alegria. Por dentro, lamento ter ido um dia ao país das maravilhas… para de lá ter saído sem conseguir colocar novamente os pés no chão.
 
Marina Costa

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Quimeras

 
Minha cabeça fervilha de ideias. Mirabolantes umas, geniais outras, doloridas quase todas mas maravilhosamente cheias de potência humana. Tendo a amar o ser humano como nunca, por ser assim, figura tão poliédrica, construtora individual e conjunta de milhões de teorias, teoremas, teimosias… É gênero, é religião, é amor, é sexo, tudo se mistura numa junção tal que bebo e bebo da poção, mais cheia a cada gole e menos saciada a cada vez, tentando verter, glutona, todo e qualquer acento de saber. Quero entender, quero pensar, quero explanar o que me causa cada “A”. E assim, no sono do fim do dia, penso e repenso, o caldo entornando no travesseiro explodo em milhares de pontos brilhantes que permanecem no sonho, a girar a engrenagem da minha imaginação.
 
Marina Costa

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Convidado


Buenos aires, mayo de 1976: abro la puerta del cuarto donde dormiré esta noche
 
Estoy solo. Y me pregunto: ¿Existe una mitad de mí que me espera todavía? ¿Dónde está? ¿Qué hace mientras tanto?
¿Vendrá lastimada, la alegría? ¿Tendrá los ojos húmedos? Respuesta y misterio de todas las cosas: ¿Y si nos hemos cruzado ya y nos hemos perdido sin enterarnos siquiera?
Cosa curiosa: no la conozco y sin embargo la extraño. Tengo nostalgia de un país que no existe todavía en el mapa.
Eduardo Galeano

terça-feira, 15 de abril de 2014

Assuntos aleatórios compondo ideias avulsas


Andando rápido chuta a lata que esbarra no cão... O lixo ficou em cima da pia por descer... A árvore da esquina precisa mesmo de poda e o aspirador de pó enguiçou, talvez de tanto pelo!? Ração está no final, o chuveiro precisa ser trocado mas e o mar do carnaval... ahhhh! Quarta feira e para o final de semana faltam ainda 8 meses... Um filho levaria nove para vir ao mundo e dizem que as fraldas para tais novas vidas andam pela hora da morte!! Falta cera de ardósia e pano de pia. Wifi com problema e cortinas, tão desbotadas... Bem que podia chover, viu! Aulas vão começar... Pintura rupestre é um bom tema para estudar.? O livro da biblioteca pública está atrasado ainda bem que a multa é baratinha daí dá para tomar café com pão de queijo da lanchonete do lado que é além de bom muito baratinho também... Salário, esse podia bem aumentar em uns 200%!! Tanto lugar no mundo para visitar... Na Tailândia, dizem, elefantes com a tromba para baixo dão azar... Olha o prédio aí. É hora de estagnar.
 
Marina Costa

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Amado

 
Balança na rede, corpo tom de areia, nua e solta de trejeitos. Sorri com facilidade e canta com doçura enquanto enrola os dedos no cabelo preto. “Oh mar azul, mar revolto, mar saudoso, traz pra mim o barco onde está o meu amor…”. E cai a tarde enquanto ela pensa sentir o cheiro salgado do peito em que vai dormir.
 
Marina Costa

terça-feira, 25 de março de 2014

Tarefa


Minha vista se amarrota. Aperto os olhos mas pouco ou nada estica. É um espaço caótico de linhas tortas sobrepostas. Aliso, aliso mas a rugosidade não cede, sólida. Ferro não é mais coisa de mulher. Papel e pena, e tenho toda a lisura que preciso…

Marina Costa

sábado, 15 de março de 2014

Brutus


Outra porta se fechou no nariz de César. Não era mesmo seu dia de sorte. Aliás, era um dia azarento como o foram todos os outros até hoje e o seriam até a sua morte. Se é que teria a sorte de morrendo se livrar de tanto azar. Para completar, a nuvem negra que o acompanhava se agitou e uma tromba d’água começou a cair, deixando sapatos, calça e paletó encharcados, cobrindo no rosto dele um rastro já seco de lágrimas recentes. Sem emprego, sem dinheiro, sem mais desculpas para o atraso do aluguel, César deixou-se ficar no degrau da calçada, observando a enxurrada lamber seus pés enquanto esperava o milagre da multiplicação, ainda que fosse de parcas sardinhas. Além de tudo, tinha fome. E desprezá-la não a diminuia.

Altas horas, entrou em sua casa pela janela para não ser visto e cobrado. A roupa molhada foi para trás da geladeira, pois tal como ele, era órfã. Do forno, estranhamente, vinha um cheiro doce de lar, que mesmo não conhecido é por todos percebido quando se faz sentir. Ao chegar na cozinha, viu uma mulher. Uma bela mulher, que cantava enquanto cozinhava. Ela parou ao ouvi-lo se aproximar e sorriu  ao lhe ver. Abriu os braços e o acalentou no peito. Ele a amou. Perdido no fogo do corpo firme dela, feliz como nunca achou que pudesse ser, adormeceu com um sorriso torto e tímido, pois a boca há muito não sabia mais como reproduzir tal expressão.

Na manhã seguinte acharam seu corpo, nu, sob o leito. Não houve luta. Nem latrocínio. Causa mortis: alta concentração de carboxihemoglobina indicando falecimento por intoxicação de monóxido de carbono precedido de possíveis delírios febris.

Marina Costa

segunda-feira, 10 de março de 2014

Rédeas


Um sorriso leve como o fim do dia espera e contempla a mais desastrosa das confusões. Dá origem a uma risada divertida que ilustra um gracejo atrevido de conclusões irresolutas. E o tempo, aliado do inimigo, corre em disparada, arrastando consigo o momento de conversa por quarteirões fugidios.

No ar, entre nuvens, pensamentos em torrente que a mente não consegue estancar. Pelo caminho, de todo dia, ideias pesadas fazendo tropeçar. A vida, sem jogos ou regras, corre solta provocando as enfurecidas incertezas. Mas a liberdade advinda, transforma o risco do inesperado em surpresa boa, que justifica tal anarquia.
 
Marina Costa

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Djavamos

 
 
Djavan me dizia ontem, entre livros e tempo cinzento, que julga o mundo um fato consumado e vai-se embora! Na hora concordei, chegando até a me levantar para aproveitar a porta aberta e apagar a luz. Então parei, como que desperta... Sorrindo, caneta no ar, retornei à mesa a fim de bebericar o café quente e seguir a conjecturar. A fumaça que subia da xícara enevoava meu olhar onde pensamentos furtivos flutuavam ao léu... Eu - pensei - bem sei dos sonhos contidos na poesia desse trovador... de seu lirismo proclamado que resulta em inspiração tamanha, capaz de nos levar a crer nos amores difíceis  mesmo em dias frios... E por vezes, ainda que sua pena vacile, dela sai esperança que encanta, nos convencendo a intuir que afinal de contas, essa vida é um jeito lindo de se estar... Assim concluo, em silêncio... e imaginando-me louca beijo-o, cúmplice! Eu, a meu modo, também apregôo o fim do mundo. Mas tal como ele, ainda não desisti.
 
Marina Costa

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Favas


E se, ao invés de dar bom dia, responder que sim, colocar tudo nos devidos lugares, apoiar e estar presente, a gente simplesmente lançasse um bomba de hidrogênio em tudo para ver se, depois de eras passadas em silêncio e inércia, a grama iria nascer mais verde e nos fazer assim mais felizes...
 
Marina Costa

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Prece



No escuro que sobra do dia os olhos clamam piedosos para as estrelas o sono sem sonhos que nunca vem. Livrai-nos do monstro de cada um de nós, vida. Amém.

Marina Costa

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Audácia


Quando Lilith surtada gritou que Adão era um paçoca, os querubins, endiabrados, riram e cochicharam que aquilo nunca iria mesmo dar certo. O pamonha, estático, tremia; não sabia se ficava ou se saía, tamanho era o medo daquela súbita explosão feminina. Ensandecida, ela cogitava entre extinguir aquela raça abjeta ou deixá-lo vagar perdido e faminto naquela chatice insuportável chamada de eterno paraíso. Por fim, a soltar fogo pelas ventas, juntou algumas poucas folhas de parreira, pegou o maço de cigarros mentolados e sem lampejo de dúvida ou sinal sequer de futuro arrependimento, se mandou Éden a fora. Deus travesso piscou para o Diabo assustado. Quanto ao destino de uma mulher resolvida nenhum dos dois ousava jogar os dados.
 
Marina Costa

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Trocas


 
Beijou o marido que sorriu para o filho e carinhosamente afagou a mulher. Pegou a bolsa sobre a mesa da sala apertada e saiu. Ao fechar a porta sua máscara de mãe feliz caiu e surgiu a apreensão da dúvida. Entrou em um ônibus, olhando ao redor, ele não a seguiu. Foi para uma parte nobre da cidade, que pouco ou nada tinha a ver com seu barracão alugado e sua tv parcelada. Ao chegar frente a um alto portão de ferro escuro, esse se abriu e deu passagem ao infante levado pela mãe. Na porta, uma empregada pediu que aguardasse. E da escada desceu emocionada uma loira platinada, de fácil sorriso falso. Olhou condoída para a menina, pois não passava disso a pobre, a pegou pela mão e a sentou com receio no sofá. Fez algumas perguntas poucas, escutou resposta nenhuma e finalmente ergueu os braços para pegar o pequenino. Com certo asco tirou de sua face aquela fraldinha encardida. A mãozinha a esfregar o olho a fez enternecer-se e esquecer que o dinheiro cruelmente dividia e determinava aqueles dois mundos. Ela, então, entregou à menina uma pequena e preciosa valise preta. E com um abraço distante a colocou para fora da sala, fechando sem cerimônias a porta pesada. Ainda a olhar a campainha, resignou-se a sair, a mãe menina, mulher dividida, sentindo uma perda esquisita nos braços mas segurando firme nas mãos seus antigos novos sonhos. Deixaria para trás os velhos vestidos remendados, as dívidas muitas e o marido, que pobre como ela, de valor só possuía o coração. Era difícil não sentir culpa mas sempre sonhara com outros ares, outros amantes, histórias de riqueza despreocupada de frente pro mar. Em troca daquele filho impensado, teria o que merecia. Sorriu uma leveza amarga. Algo faltava mas ela não entendia essa ausência. A chutar pedras, incerta, encontrou no caminho uma ponte. Olhou para baixo e viu um rio, sujo como se sentia. Algo que se lembrava ter lido um dia,  sem maior importância, rodopiou em sua mente e tomou forma… Ela subiu, respirou e se atirou. Horas depois, notas de 100 desciam a correnteza. O pescador, que acreditava em milagre, não viu o corpo preso nos arbustos logo acima. Atirou-se sôfrego e em êxtase no rio a imaginar o banquete que faria para a família faminta.

Marina Costa

sábado, 25 de janeiro de 2014

Fuga

 
 
A cada nova manhã ela percorre lugares diversos, criando diferentes versões do ontem para que seja outra vez a única a saber de suas próprias verdades doentias. Seu modo de omitir, sua dissimulação, sua falsidade no dizer e sua mesquinha demonstração de individualismo são facetas por demais exibidas ao próximos mas que podem ser maquiadas para conquistas recentes. Em contrapartida, a cada nova manhã ela precisa mostrar mais uma vez seu lado honesto e vívido, sua inteligência sutil aliada à perspicácia divertida e ácida de quem muito já viu e aceita quase tudo, independente da posição política. Sabe que não é fácil chegar perto para mostrar o som do riso. Por outro lado é bom não ter que sempre abaixar os olhos tentando esconder a lembrança de um choro. Ela olha para os rostos ao redor, mutantes conforme a estação e percebe neles a mesma sensação de pânico conhecida, de quem omite o que tem de pior para tentar transparecer apenas o que satisfaz... Assim atuam todos nesse palco de convívio onde impuseram ao não um papel asqueroso demais para ser admitido. Se de perto ninguém é normal, a certa distância todos são insípidos demais. Temperados com um pouco da colônia da moda, para tentar parecerem iguais.
 
Marina Costa

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Rio


Plantada na margem assisto petrificada correr nosso último fio. Meu galho até tenta alcançar suas gotas parcas mas falta fôlego em minhas folhas secas. Escorre corrente abaixo tua vontade e a minha. Em desespero, eu rio.

Marina Costa

* crônica originalmente postada com o título "Desrio". Não me pergunte.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Diana


Ela abriu os olhos e deu com o azul do céu sem nuvens. Lembrou-se vagarosamente onde estava e porque. Apertou as mãos na grama orvalhada e sentindo ainda a moleza da manhã sorriu, em calmo êxtase. Virou o rosto para ver o verde a perder de vista da liberdade recém conquistada. A paz em sua expressão era sinônimo de decisão acertada. Ainda devagar, ela se levantou e foi até o riacho, próximo. Entrou assim vestida, talvez um resto a minguar da opressão por tanto tempo vivida. Sentiu aos poucos o abraço da água em torno de seu corpo. De olhos fechados ficou a ouvir a própria respiração enquanto o calor do sol recém nascido a enchia de vida. Estava perdida para o mundo agora, e era assim que queria ser vista. Este era apenas o começo de uma caminhada que se propunha sem fim. Onde o rumo a seguir seria definido pela mágica palavra a pouco aprendida: para tudo, diria SIM.
 
Marina Costa