quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Trocas


 
Beijou o marido que sorriu para o filho e carinhosamente afagou a mulher. Pegou a bolsa sobre a mesa da sala apertada e saiu. Ao fechar a porta sua máscara de mãe feliz caiu e surgiu a apreensão da dúvida. Entrou em um ônibus, olhando ao redor, ele não a seguiu. Foi para uma parte nobre da cidade, que pouco ou nada tinha a ver com seu barracão alugado e sua tv parcelada. Ao chegar frente a um alto portão de ferro escuro, esse se abriu e deu passagem ao infante levado pela mãe. Na porta, uma empregada pediu que aguardasse. E da escada desceu emocionada uma loira platinada, de fácil sorriso falso. Olhou condoída para a menina, pois não passava disso a pobre, a pegou pela mão e a sentou com receio no sofá. Fez algumas perguntas poucas, escutou resposta nenhuma e finalmente ergueu os braços para pegar o pequenino. Com certo asco tirou de sua face aquela fraldinha encardida. A mãozinha a esfregar o olho a fez enternecer-se e esquecer que o dinheiro cruelmente dividia e determinava aqueles dois mundos. Ela, então, entregou à menina uma pequena e preciosa valise preta. E com um abraço distante a colocou para fora da sala, fechando sem cerimônias a porta pesada. Ainda a olhar a campainha, resignou-se a sair, a mãe menina, mulher dividida, sentindo uma perda esquisita nos braços mas segurando firme nas mãos seus antigos novos sonhos. Deixaria para trás os velhos vestidos remendados, as dívidas muitas e o marido, que pobre como ela, de valor só possuía o coração. Era difícil não sentir culpa mas sempre sonhara com outros ares, outros amantes, histórias de riqueza despreocupada de frente pro mar. Em troca daquele filho impensado, teria o que merecia. Sorriu uma leveza amarga. Algo faltava mas ela não entendia essa ausência. A chutar pedras, incerta, encontrou no caminho uma ponte. Olhou para baixo e viu um rio, sujo como se sentia. Algo que se lembrava ter lido um dia,  sem maior importância, rodopiou em sua mente e tomou forma… Ela subiu, respirou e se atirou. Horas depois, notas de 100 desciam a correnteza. O pescador, que acreditava em milagre, não viu o corpo preso nos arbustos logo acima. Atirou-se sôfrego e em êxtase no rio a imaginar o banquete que faria para a família faminta.

Marina Costa

sábado, 25 de janeiro de 2014

Fuga

 
 
A cada nova manhã ela percorre lugares diversos, criando diferentes versões do ontem para que seja outra vez a única a saber de suas próprias verdades doentias. Seu modo de omitir, sua dissimulação, sua falsidade no dizer e sua mesquinha demonstração de individualismo são facetas por demais exibidas ao próximos mas que podem ser maquiadas para conquistas recentes. Em contrapartida, a cada nova manhã ela precisa mostrar mais uma vez seu lado honesto e vívido, sua inteligência sutil aliada à perspicácia divertida e ácida de quem muito já viu e aceita quase tudo, independente da posição política. Sabe que não é fácil chegar perto para mostrar o som do riso. Por outro lado é bom não ter que sempre abaixar os olhos tentando esconder a lembrança de um choro. Ela olha para os rostos ao redor, mutantes conforme a estação e percebe neles a mesma sensação de pânico conhecida, de quem omite o que tem de pior para tentar transparecer apenas o que satisfaz... Assim atuam todos nesse palco de convívio onde impuseram ao não um papel asqueroso demais para ser admitido. Se de perto ninguém é normal, a certa distância todos são insípidos demais. Temperados com um pouco da colônia da moda, para tentar parecerem iguais.
 
Marina Costa

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Rio


Plantada na margem assisto petrificada correr nosso último fio. Meu galho até tenta alcançar suas gotas parcas mas falta fôlego em minhas folhas secas. Escorre corrente abaixo tua vontade e a minha. Em desespero, eu rio.

Marina Costa

* crônica originalmente postada com o título "Desrio". Não me pergunte.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Diana


Ela abriu os olhos e deu com o azul do céu sem nuvens. Lembrou-se vagarosamente onde estava e porque. Apertou as mãos na grama orvalhada e sentindo ainda a moleza da manhã sorriu, em calmo êxtase. Virou o rosto para ver o verde a perder de vista da liberdade recém conquistada. A paz em sua expressão era sinônimo de decisão acertada. Ainda devagar, ela se levantou e foi até o riacho, próximo. Entrou assim vestida, talvez um resto a minguar da opressão por tanto tempo vivida. Sentiu aos poucos o abraço da água em torno de seu corpo. De olhos fechados ficou a ouvir a própria respiração enquanto o calor do sol recém nascido a enchia de vida. Estava perdida para o mundo agora, e era assim que queria ser vista. Este era apenas o começo de uma caminhada que se propunha sem fim. Onde o rumo a seguir seria definido pela mágica palavra a pouco aprendida: para tudo, diria SIM.
 
Marina Costa