sábado, 25 de janeiro de 2014

Fuga

 
 
A cada nova manhã ela percorre lugares diversos, criando diferentes versões do ontem para que seja outra vez a única a saber de suas próprias verdades doentias. Seu modo de omitir, sua dissimulação, sua falsidade no dizer e sua mesquinha demonstração de individualismo são facetas por demais exibidas ao próximos mas que podem ser maquiadas para conquistas recentes. Em contrapartida, a cada nova manhã ela precisa mostrar mais uma vez seu lado honesto e vívido, sua inteligência sutil aliada à perspicácia divertida e ácida de quem muito já viu e aceita quase tudo, independente da posição política. Sabe que não é fácil chegar perto para mostrar o som do riso. Por outro lado é bom não ter que sempre abaixar os olhos tentando esconder a lembrança de um choro. Ela olha para os rostos ao redor, mutantes conforme a estação e percebe neles a mesma sensação de pânico conhecida, de quem omite o que tem de pior para tentar transparecer apenas o que satisfaz... Assim atuam todos nesse palco de convívio onde impuseram ao não um papel asqueroso demais para ser admitido. Se de perto ninguém é normal, a certa distância todos são insípidos demais. Temperados com um pouco da colônia da moda, para tentar parecerem iguais.
 
Marina Costa

2 comentários:

  1. MUITO, MUITO bom! Característica humana potencializada pelas redes socias...

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  2. É tanta "insipidez" que nem meu gosto sei como é mais! Obrigada Gabriel!

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