terça-feira, 25 de março de 2014

Tarefa


Minha vista se amarrota. Aperto os olhos mas pouco ou nada estica. É um espaço caótico de linhas tortas sobrepostas. Aliso, aliso mas a rugosidade não cede, sólida. Ferro não é mais coisa de mulher. Papel e pena, e tenho toda a lisura que preciso…

Marina Costa

sábado, 15 de março de 2014

Brutus


Outra porta se fechou no nariz de César. Não era mesmo seu dia de sorte. Aliás, era um dia azarento como o foram todos os outros até hoje e o seriam até a sua morte. Se é que teria a sorte de morrendo se livrar de tanto azar. Para completar, a nuvem negra que o acompanhava se agitou e uma tromba d’água começou a cair, deixando sapatos, calça e paletó encharcados, cobrindo no rosto dele um rastro já seco de lágrimas recentes. Sem emprego, sem dinheiro, sem mais desculpas para o atraso do aluguel, César deixou-se ficar no degrau da calçada, observando a enxurrada lamber seus pés enquanto esperava o milagre da multiplicação, ainda que fosse de parcas sardinhas. Além de tudo, tinha fome. E desprezá-la não a diminuia.

Altas horas, entrou em sua casa pela janela para não ser visto e cobrado. A roupa molhada foi para trás da geladeira, pois tal como ele, era órfã. Do forno, estranhamente, vinha um cheiro doce de lar, que mesmo não conhecido é por todos percebido quando se faz sentir. Ao chegar na cozinha, viu uma mulher. Uma bela mulher, que cantava enquanto cozinhava. Ela parou ao ouvi-lo se aproximar e sorriu  ao lhe ver. Abriu os braços e o acalentou no peito. Ele a amou. Perdido no fogo do corpo firme dela, feliz como nunca achou que pudesse ser, adormeceu com um sorriso torto e tímido, pois a boca há muito não sabia mais como reproduzir tal expressão.

Na manhã seguinte acharam seu corpo, nu, sob o leito. Não houve luta. Nem latrocínio. Causa mortis: alta concentração de carboxihemoglobina indicando falecimento por intoxicação de monóxido de carbono precedido de possíveis delírios febris.

Marina Costa

segunda-feira, 10 de março de 2014

Rédeas


Um sorriso leve como o fim do dia espera e contempla a mais desastrosa das confusões. Dá origem a uma risada divertida que ilustra um gracejo atrevido de conclusões irresolutas. E o tempo, aliado do inimigo, corre em disparada, arrastando consigo o momento de conversa por quarteirões fugidios.

No ar, entre nuvens, pensamentos em torrente que a mente não consegue estancar. Pelo caminho, de todo dia, ideias pesadas fazendo tropeçar. A vida, sem jogos ou regras, corre solta provocando as enfurecidas incertezas. Mas a liberdade advinda, transforma o risco do inesperado em surpresa boa, que justifica tal anarquia.
 
Marina Costa