sábado, 15 de março de 2014

Brutus


Outra porta se fechou no nariz de César. Não era mesmo seu dia de sorte. Aliás, era um dia azarento como o foram todos os outros até hoje e o seriam até a sua morte. Se é que teria a sorte de morrendo se livrar de tanto azar. Para completar, a nuvem negra que o acompanhava se agitou e uma tromba d’água começou a cair, deixando sapatos, calça e paletó encharcados, cobrindo no rosto dele um rastro já seco de lágrimas recentes. Sem emprego, sem dinheiro, sem mais desculpas para o atraso do aluguel, César deixou-se ficar no degrau da calçada, observando a enxurrada lamber seus pés enquanto esperava o milagre da multiplicação, ainda que fosse de parcas sardinhas. Além de tudo, tinha fome. E desprezá-la não a diminuia.

Altas horas, entrou em sua casa pela janela para não ser visto e cobrado. A roupa molhada foi para trás da geladeira, pois tal como ele, era órfã. Do forno, estranhamente, vinha um cheiro doce de lar, que mesmo não conhecido é por todos percebido quando se faz sentir. Ao chegar na cozinha, viu uma mulher. Uma bela mulher, que cantava enquanto cozinhava. Ela parou ao ouvi-lo se aproximar e sorriu  ao lhe ver. Abriu os braços e o acalentou no peito. Ele a amou. Perdido no fogo do corpo firme dela, feliz como nunca achou que pudesse ser, adormeceu com um sorriso torto e tímido, pois a boca há muito não sabia mais como reproduzir tal expressão.

Na manhã seguinte acharam seu corpo, nu, sob o leito. Não houve luta. Nem latrocínio. Causa mortis: alta concentração de carboxihemoglobina indicando falecimento por intoxicação de monóxido de carbono precedido de possíveis delírios febris.

Marina Costa

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