sexta-feira, 30 de maio de 2014

Alocução


Bondade. Substantivo bonachão e querido, que sorri sincero ao ouvir seu nome. Por mais duro o semblante de quem diz, vem a necessidade de sorrir quando a boca forma tais fonemas. Repita com calma: BON DA DE! E a palavra sai como bolha de sabão, leve e solta, encostando macia daqui e dali até que por fim estoura em um espinho mais afiado, que antes servia de acento ao rancor. Os respingos da bondade borrifam o ar com uma névoa branca, brilhante, multicor. E o peito, antes oprimido pelo negrume de um pensamento intruso e malcriado se alivia na bem querença dessa palavrinhha tão caridosa.
 
Marina Costa

domingo, 25 de maio de 2014

Meu pai saiu para comprar cigarros


 
Para minha mãe. No momento em que ele pôs o pé para fora, uma perna entrou janela a dentro. Olhou para mim e sorriu. Pôs o dedo em riste nos lábios e correu para o quarto. Risadas e barulhos altos eu ouvi enquanto tapava as grandes orelhas do meu coelho peludo. As pernas se foram, o riso passou e meu pai não voltou. Minha mãe deu-se por conformada, juntou as malas e fugiu com o circo. Eu e o orelhudo nos entreolhamos, obviamente perdidos. Algumas cenouras de plástico e um guarda chuva quebrado de coração nos acompanharam estrada a fora, na indecisão de tantos caminhos imaturos. Só uma certeza seguiria nossa trilha. Fumar, definitivamente, é um vício que arruina muitas vidas.
 
Marina Costa

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Sola


Sou cidadã sem pátria, desde que te vi partir sem sinal de breve regresso. Me sinto perdida em qualquer terra por mais belas que sejam as paisagens que me apresentam. Não há olhos que prendam mais que poucos momentos de minha tênue atenção… a não ser o bastante para buscar mergulhadas ali lembranças tuas. Quando sorrio é por me sentir assim pobre e só no meio da multidão. Deixem que se enganem com minha turva alegria. Por dentro, lamento ter ido um dia ao país das maravilhas… para de lá ter saído sem conseguir colocar novamente os pés no chão.
 
Marina Costa