segunda-feira, 30 de junho de 2014

Despertos

 
E o sol passou outra vez brilhante e morreu como o facho da última estrela cadente que vi antes de dormir enquanto apertava a sua mão na minha Acordei do sonho do sono, você já se tinha ido, esmaecido em brumas e não via mais comigo a abóbada celeste salpicada de pura luz. Amedrontada caí de novo no poço mais fundo, iluminado pelos holofotes de mentira… Mas eu verdadeireço na noite porque aprendi a viver de dia.
 
Marina Costa

domingo, 15 de junho de 2014

Instante

 
 
No tilintar de seus dentes perfeitos ressoa o riso fácil desprovido de motivo. Ri porque te faz bem ao espírito me ver assim, tonteante, ouvindo seus disparates. Ri transbordante enquanto acaricia meu cabelo, tirando uma mecha fina de minha testa com ternura tamanha que me enuvia o olhar… Eu estou aqui depois te tanto te buscar. Não há no mundo sonho mais doce do que este que tenho todas as noites. Despertando em ti…
 
Marina Costa

terça-feira, 10 de junho de 2014

Sonho de uma Mulher Medíocre


Ela passa pelas ruas avulsas alheia, sem levar os olhos aos olhares outros. Carrega um livro, para mostrar erudição, e fecha o semblante como forma de afastar sorrisos. Espera o sinal para atravessar e não se detém para elogios. Senta em um café escondido e pede, intimidada, um cappuccino. Abre então a leitura do momento e enquanto a vista se cansa nas letras pequenas a cabeça borboleteia em torno de pensamentos mal resolvidos. Há homens esperando resposta, amigas pedindo conselhos, contas para pagar dependuradas na estante. Mas o que realmente pesa naquela cabeça, que de oca pouco tem, é o único motivo do muito furor em torno de si. Para que tanta conversa, tanta saliva sem palavras, tanta promessa e tanto pedir. Ela imagina, e busca assim viver, que poderá refugiar-se em si, nos livros que prometem respostas, nos filmes que a levam para outro viver. Ela sonha com um mundo sem vivos. Sonha deixar de querer. Sem sangue, sem drama, sem ritos. O sonho da mulher medíocre é estourar, simplesmente, como bolha de sabão e sentir seus restos fluídos evaporarem no ar.
 
Marina Costa

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Desce


Esperavam juntos. Ela não queria ir primeiro e ele, como bom cavalheiro, segurou a porta. Sorriu, constrangida. Fechou os olhos, ao sentir o perfume dela. Quase ao mesmo tempo apertaram o painel. Ela rumo a saída principal. Ele para a garagem no subsolo. Começaram a descida. O silêncio sufocava a medida que se aproximavam do chão. 15º andar, ela suspirou forte. Passando pelo 12º, sentiu aquele olhar de canto de olho. 11º e ambos em sincronia cruzaram os braços. No 8º o elevador parou. Se entreolharam no momento em que a porta ficou por eternos segundos aberta. Ninguém, felizmente, atrapalhou. No 6º ele coçou a cabeça. No 4º ela ajeitou a bolsa. Ao chegar no 3º ele abriu, pensou e ao mesmo tempo fechou a boca, intimidado. Ela, frustrada de expectativa, abaixou a cabeça. 2º, 1º e era o fim infértil de mais um dia. Ao ouvir o sinal do térreo ele, num gesto rápido e nervoso, segurou sua mão. Ela inundada de dúvidas, esperou a porta abrir olhando em frente. Ele, em súplica muda, apertou seus dedos. E a última coisa que pude ver, do lado de fora no saguão foi um sorriso tímido mas doce iluminando o rosto dela quando deixou-se ficar e a porta do elevador finalmente se fechou para a crônica.
 
Marina Costa