terça-feira, 10 de junho de 2014

Sonho de uma Mulher Medíocre


Ela passa pelas ruas avulsas alheia, sem levar os olhos aos olhares outros. Carrega um livro, para mostrar erudição, e fecha o semblante como forma de afastar sorrisos. Espera o sinal para atravessar e não se detém para elogios. Senta em um café escondido e pede, intimidada, um cappuccino. Abre então a leitura do momento e enquanto a vista se cansa nas letras pequenas a cabeça borboleteia em torno de pensamentos mal resolvidos. Há homens esperando resposta, amigas pedindo conselhos, contas para pagar dependuradas na estante. Mas o que realmente pesa naquela cabeça, que de oca pouco tem, é o único motivo do muito furor em torno de si. Para que tanta conversa, tanta saliva sem palavras, tanta promessa e tanto pedir. Ela imagina, e busca assim viver, que poderá refugiar-se em si, nos livros que prometem respostas, nos filmes que a levam para outro viver. Ela sonha com um mundo sem vivos. Sonha deixar de querer. Sem sangue, sem drama, sem ritos. O sonho da mulher medíocre é estourar, simplesmente, como bolha de sabão e sentir seus restos fluídos evaporarem no ar.
 
Marina Costa

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